Solidão

18/11/2024


Outro dia, lá estava eu, no meio de uma multidão, parada no metrô lotado. Ao meu redor, dezenas de pessoas disputavam cada centímetro de espaço, todas ocupadas com suas vidas: umas trocando mensagens, outras conferindo o relógio, algumas apenas olhando para o chão, como se estivessem esperando a viagem terminar logo. Cada um no seu próprio mundo. E, no meio disso tudo, um pensamento me pegou de surpresa: como eu podia me sentir tão sozinha com tanta gente ao meu redor?

É curioso como a gente acha que solidão é coisa de quarto vazio, casa silenciosa ou de noite de sexta-feira sem planos. Mas, com o tempo, fui descobrindo que existe outro tipo de solidão – aquela que surge no meio das multidões, dos dias cheios, dos lugares movimentados. Uma solidão que não se explica pelo silêncio, mas pelo barulho; que não vem da falta de pessoas, mas da falta de conexões.

Quem nunca se sentiu assim? Hoje, estamos cercadas de "amigos" nas redes sociais, temos grupos no WhatsApp e estamos a um toque de distância de qualquer pessoa. Mas, no fundo, é como se tudo isso fosse uma miragem: você vê a água brilhando lá na frente, mas, quando chega perto, percebe que continua com sede.

Já tentei entender essa "solidão na multidão" como uma fase. Fase, essa palavra mágica que usamos para dar um consolo a nós mesmas – mas quanto mais o tempo passa, mais eu vejo que não é só uma fase, é um estado. É a nossa vida moderna, nossa corrida para conquistar, para produzir, para estar sempre em algum lugar, ainda que muitas vezes estejamos em todos os lugares, menos onde realmente queríamos estar.

Engraçado até que, em alguns momentos, eu anseio pela solidão "normal". Aquela que permite ouvir o silêncio e as ideias, dar um espaço para a cabeça respirar. Mas essa solidão de estar sozinha comigo mesma é rara – o que encaro mais vezes é essa solidão cercada de gente. Uma solidão que deixa um vazio sutil, mas insistente, como se faltasse alguma coisa que eu nem sei nomear.

Parei para pensar: talvez essa solidão que sentimos no meio da multidão seja um convite para nos conectarmos de outro jeito. Com mais autenticidade, menos pressa, mais sinceridade. Fico aqui imaginando quantas das pessoas ao meu redor, que parecem tão compenetradas nos celulares ou tão distantes no olhar, também estão sentindo essa mesma falta de conexão real. Talvez eu não seja a única "sozinha" nesse vagão; talvez cada uma de nós esteja se sentindo, de alguma forma, só – e, ironicamente, talvez essa seja uma das coisas mais humanas que temos em comum.

Hoje, tento olhar para essa solidão com menos pressa de preenchê-la. Em vez de abrir o celular para ver as fotos dos outros (que geralmente só aumentam essa sensação) ou de ocupar o tempo com algo que me distraia, tento apenas observar. Observar as pessoas, os gestos, as expressões perdidas em pensamentos. E, às vezes, sorrio para alguém – só para lembrar que, apesar de todos esses muros invisíveis entre nós, ainda somos capazes de nos conectar, mesmo que por um breve instante.

Porque, no fim das contas, talvez o antídoto para essa solidão não seja encontrar mais gente, mas encontrar mais presença.