Sobre o Amor

Talvez, no fim da vida, Deus não nos pergunte quantas pessoas se apaixonaram por nós. Talvez nos pergunte quantas souberam que eram amadas por nós.

Acho que, sem perceber, vamos encolhendo a palavra "amor".

Não porque ela tenha perdido o significado. Fomos nós que lhe demos um espaço cada vez menor. Aos poucos, fomos cercando-a de limites, condições e interpretações até que ela parecesse pertencer apenas a alguns territórios muito específicos. Hoje, ela habita com conforto a família, encontra abrigo no romance e se eleva sem questionamentos quando dirigida a Deus. Fora disso, parece causar estranhamento. Como se toda forma de amor precisasse justificar a própria existência. Como se a profundidade de um afeto fosse imediatamente colocada sob suspeita.

Então aprendemos a substituir a palavra.

Não porque sentimos menos, mas porque aprendemos a temer o peso que ela carrega.

Dizemos "tenho um carinho enorme por você". Dizemos "você é muito especial para mim". Dizemos "sou grata pela sua vida". E todas essas frases são verdadeiras. O problema é que, às vezes, elas orbitam uma verdade ainda maior que não ousamos pronunciar. Talvez porque tenhamos aprendido que amar precisa obedecer a determinadas categorias. Talvez porque tenhamos nos acostumado a medir aquilo que, por natureza, nasceu para transbordar.

Penso que uma das maiores pobrezas do nosso tempo não seja a falta de amor. Amor existe em abundância. Ele aparece nos cuidados silenciosos, nas preocupações discretas, nas mensagens enviadas sem motivo, nas presenças que permanecem. O que talvez esteja em falta seja a coragem de reconhecê-lo pelo nome.

Vivemos cercados de pessoas que sustentaram pedaços inteiros da nossa existência e seguimos supondo que elas sabem disso. Supomos que nossos amigos sabem. Que perceberam. Que entenderam. Que não precisam ouvir. Mas há uma diferença imensa entre ser amado e saber-se amado. Nem sempre uma coisa alcança a outra.

Penso nos amigos.

Naqueles que chegaram sem promessas e ficaram sem obrigação. Naqueles que carregaram conosco dias que nem nós mesmos sabíamos como atravessar. Os que ouviram as mesmas dores repetidas vezes sem demonstrar cansaço. Os que celebraram nossas alegrias sem invejá-las. Os que permaneceram quando a vida nos tornou difíceis de amar. Há pessoas que conhecem a geografia da nossa alma com uma precisão que poucos parentes possuem e, ainda assim, hesitamos em chamar isso de amor.

Talvez porque tenhamos reduzido o amor ao desejo de possuir alguém, quando algumas das formas mais belas de amor são justamente aquelas que não desejam possuir nada.

A amizade é uma delas.

Talvez algumas amizades sejam a forma mais livre de amor que alguém experimentará durante toda a vida. Não nasceram da obrigação do sangue. Não nasceram de votos pronunciados diante de um altar. Não dependem de contratos, expectativas ou promessas de permanência. Permanecem porque, dia após dia, alguém escolhe permanecer.

E, no entanto, temos dificuldade em dizer "eu te amo".

É curioso. Temos medo de que a frase seja mal interpretada, mas não temos medo de que ela jamais seja dita. Temos receio de parecer apaixonados, mas não de parecer indiferentes. Administramos o afeto como quem administra um recurso escasso. Regulamos as palavras. Controlamos as demonstrações. Calculamos a intensidade. Como se o amor fosse algo que precisasse ser mantido sob vigilância.

Talvez aí esteja uma das grandes contradições do nosso tempo.

Falamos muito sobre amor e, ao mesmo tempo, parecemos desconfiar dele. Quando alguém ama sem reservas, chamamos de exagero. Quando alguém demonstra ternura sem interesse oculto, procuramos uma segunda intenção. Quando alguém escolhe permanecer fiel a um amigo durante décadas, tratamos isso como algo admirável, mas raro, quando deveria ser apenas humano.

Lembro-me de uma antiga ideia atribuída a Santo Agostinho: a medida do amor é amar sem medida. E talvez seja justamente isso que nos incomode. Gostamos de amores que possam ser catalogados, explicados e organizados em gavetas. O amor, porém, tem o hábito inconveniente de escapar delas.

Talvez por isso tantas despedidas carreguem um peso que a ausência, sozinha, não explica. Porque junto com a saudade vem também o encontro com tudo aquilo que deixamos por dizer. O amigo que partiu sem ouvir nossa gratidão. A pessoa que mudou de caminho sem jamais saber o quanto sua presença sustentou os nossos dias. As palavras que julgamos desnecessárias até descobrir que o tempo não devolveria a oportunidade de pronunciá-las.

E então percebemos que o amor nunca foi o excesso. O excesso foi o nosso silêncio.

Talvez devêssemos devolver à palavra "amor" o tamanho que ela sempre teve. Não para banalizá-la, mas para libertá-la. Não para transformar amizade em romance, mas para reconhecer que algumas pessoas ocupam em nossa vida um lugar grande demais para caber apenas no vocabulário da simpatia.

Porque há pessoas que merecem atravessar esta vida sabendo que foram profundamente amadas.

E talvez a verdadeira pergunta não seja por que temos dificuldade de dizer "eu te amo" aos amigos.

Talvez a pergunta seja quando foi que começamos a acreditar que o amor precisava ser tão pequeno.

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