Saber e Sentir
Saber é elegante.
Tem lógica, tem forma, tem até aplauso.
Sentir, por outro lado, é feio. É trêmulo. É nu.
Não tem manual, nem glamour. Tem só você, caído no chão da sala às duas da manhã, tentando lembrar por que ainda insiste em levantar.
Você pode saber o que está acontecendo dentro de si, nomear o luto, identificar o gatilho, reconhecer o padrão.
Pode saber que é só mais uma fase, só mais uma dorzinha de crescimento, só mais um ciclo que vai se fechar.
Mas saber isso não impede o nó na garganta.
Não evita o vazio que te engole no fim do dia.
Não segura o choro que escapa quando você se permite, finalmente, parar de ser forte.
Porque o saber não toca o que dói de verdade.
Ele passa por cima, enquanto o sentir cava fundo.
O saber é útil, mas o sentir é inevitável.
E talvez seja aí que more o conflito: a gente aprendeu a sobreviver com respostas, mas desaprendeu a se curar com presença.
Tem dias em que eu sei tudo e, ainda assim, não consigo me mover.
E tem outros em que não sei nada, mas algo em mim decide continuar; por pura fé, por cansaço, ou porque desistir também dá trabalho.
É duro perceber que não basta entender.
Que o mundo interno tem sua própria linguagem, e nem sempre fala em português claro.
Às vezes, fala em silêncio.
Às vezes, em ausência.
Às vezes, em lágrimas que a gente nem sabe de onde vêm.
Mas é aí, justo aí, que algo começa a nascer.
Não do saber que você carrega na mente, mas da coragem que brota no peito.
A coragem de não fugir da dor.
De sentar com ela.
De ouvir o que ela tem a dizer.
De deixar que ela te transforme, mesmo que você não entenda como.
Porque no fim, a dor que a gente sente com verdade é a mesma que abre espaço pra uma cura mais inteira.
E o conhecimento que realmente importa…
é aquele que atravessa a alma, antes de fazer sentido na cabeça.
