Que Sorte a nossa ter coincidido

Há qualquer coisa de espantoso no fato de conhecermos alguém.

Penso nisso quando observo duas pessoas que convivem há muitos anos. Uma termina a frase da outra, antecipa uma reclamação, reconhece pelo silêncio que alguma coisa aconteceu. Há quem saiba exatamente como o outro gosta do café, quem conheça histórias inteiras apenas pelo início e quem já tenha desistido de corrigir determinados exageros, embora continue revirando os olhos a cada nova versão dos acontecimentos.

E pensar que houve um tempo em que essas pessoas eram completas desconhecidas.

Não sabiam os nomes uma da outra, desconheciam suas manias, seus medos, suas preferências culinárias e aquela história vergonhosa que, por algum motivo, continua sendo mencionada em todas as reuniões. Viviam perfeitamente bem sem suspeitar que, em algum momento, passariam a ocupar um lugar importante na vida uma da outra.

Bastaria uma mudança de emprego, um convite recusado, uma viagem adiada ou a decisão banal de permanecer em casa naquela tarde, e tudo poderia ter sido diferente.

É desconcertante perceber quanto daquilo que hoje consideramos essencial dependeu de acontecimentos aos quais, na ocasião, não demos importância alguma.

Gostamos de atribuir aos grandes momentos a responsabilidade pelas grandes mudanças. Procuramos acontecimentos decisivos, datas memoráveis, escolhas corajosas. Entretanto, boa parte da nossa história foi modificada por circunstâncias tão corriqueiras que não saberíamos dizer quando aconteceram. Ninguém costuma anotar no calendário o dia em que conheceu uma pessoa que, anos depois, terá liberdade para abrir sua geladeira e reclamar que não há nada para comer.

E que distância imensa existe entre o primeiro cumprimento e essa intimidade doméstica.

A geografia explica como duas pessoas chegam ao mesmo lugar. O calendário explica por que estão ali no mesmo dia. Nenhum dos dois consegue explicar o que acontece depois. Há pessoas que passam anos sentadas a poucos metros umas das outras e permanecem desconhecidas. Outras dividem uma conversa de vinte minutos e encontram assunto para os próximos vinte anos.

O encontro é apenas o começo de uma história que ninguém sabe muito bem como será escrita.

Cruzamos diariamente com pessoas que jamais voltaremos a ver. Conversamos, sorrimos, trocamos gentilezas e seguimos adiante. Algumas permanecem. Entram aos poucos em nossa rotina, aprendem nossos hábitos, participam das nossas decisões e acabam conhecendo aspectos da nossa personalidade que nem sempre mostramos ao restante do mundo.

Com o passar dos anos, descobrimos também suas contradições. A pessoa admiravelmente sensata toma decisões estúpidas. Aquela criatura sempre tão paciente perde a compostura por uma bobagem. O amigo que oferece conselhos excelentes demonstra uma incapacidade quase artística de segui-los.

Felizmente, ninguém consegue sustentar a melhor versão de si mesmo durante muito tempo.

Seria insuportável conviver apenas com pessoas exemplares. Imagine a obrigação de ser interessante durante todos os almoços, inteligente em todas as conversas e emocionalmente equilibrado antes mesmo da primeira xícara de café. Não haveria amizade que resistisse a tamanho esforço.

A intimidade nos concede o privilégio de sermos comuns diante de alguém. Podemos estar cansados, distraídos, mal-humorados, contar uma piada péssima ou passar uma tarde inteira sem produzir uma única observação digna de registro. E a companhia continua sendo desejada.

Confesso que minha admiração pelos encontros humanos não me impede de inventar desculpas para faltar a determinados compromissos. Adoro a humanidade, sobretudo quando ela não exige que eu tire o pijama. Tenho uma relação particularmente afetuosa com os planos que podem ser cancelados sem maiores consequências. Ainda assim, algumas das melhores lembranças que possuo começaram justamente com um convite que pensei em recusar.

É uma contradição da qual não pretendo me livrar tão cedo.

Tenho também uma teoria pouco científica sobre a convivência: ninguém passa muito tempo pela vida de outra pessoa sem deixar alguma coisa espalhada. Uns deixam expressões que incorporamos ao vocabulário, outros deixam receitas, músicas, opiniões e até o hábito irritante de corrigir a posição dos talheres. De repente, descobrimos que uma parte daquilo que chamamos de personalidade foi adquirida durante conversas que nem sequer recordamos.

Antes de conhecer determinada pessoa, uma música era apenas uma música. Depois, passa a carregar uma história. Uma rua que não despertava interesse torna-se familiar. Um prato desconhecido entra para a lista dos favoritos. Uma expressão engraçada incorpora-se ao vocabulário. Vamos recebendo pequenas influências que modificam nossos hábitos, nossos gostos e até a maneira como interpretamos o mundo.

De repente, gostamos de alguma coisa que nem sabíamos existir.

E há um prazer particular em perceber essas pequenas transformações. Descobrir que aprendemos a preparar determinado prato porque alguém nos ensinou, que passamos a gostar de um escritor por insistência de um amigo, que adquirimos o costume de caminhar por uma rua apenas porque certa vez estivemos ali acompanhados.

Carregamos um pouco das pessoas com quem convivemos nos gestos, nas palavras, nas receitas que aprendemos, nas músicas que ouvimos e nas histórias que passamos a contar.

Tudo isso começa de maneira quase despretensiosa.

Duas pessoas se encontram, conversam sobre qualquer assunto e seguem seus dias. Voltam a conversar, descobrem afinidades, estranham algumas diferenças, compartilham experiências. Aos poucos, criam uma familiaridade que antes não existia.

Com o tempo, surgem as histórias em comum.

Aquela viagem em que tudo deu errado. O aniversário que ninguém conseguiu organizar direito. O almoço que deveria durar uma hora e terminou no começo da noite. A discussão completamente desnecessária sobre um assunto do qual ninguém entendia grande coisa.

São acontecimentos modestos, mas passam a pertencer a uma pequena história coletiva, conhecida apenas por quem estava presente.

Gosto especialmente dessa parte da convivência. A possibilidade de olhar para alguém e dizer apenas duas ou três palavras, suficientes para provocar uma gargalhada que deixaria qualquer pessoa de fora absolutamente confusa.

Existe um universo inteiro escondido nessas referências.

Outro dia me ocorreu uma coisa curiosa enquanto conversava com algumas pessoas. Não estávamos comemorando nada. Ninguém havia recebido uma notícia extraordinária, não havia motivo especial para estarmos reunidos e, a julgar pela qualidade dos assuntos, também não havia grandes contribuições sendo feitas ao pensamento humano.

Em determinado momento, alguém começou a rir, outro tentou contar uma história por cima da primeira e a conversa se transformou naquela confusão familiar em que ninguém escuta direito, mas todos parecem perfeitamente satisfeitos.

Olhei ao redor e tive uma consciência muito simples: eu estava feliz.

Não precisei fazer nada com essa descoberta. Continuei conversando.

Mais tarde, quando voltei para casa, pensei na quantidade de vezes em que reconhecemos nossos dias felizes apenas depois que eles terminaram. Encontramos uma fotografia antiga, ouvimos determinada música, recordamos uma conversa e percebemos que, naquele instante, tínhamos tudo de que precisávamos para estar contentes.

E, no entanto, durante o acontecimento, estávamos preocupados com alguma coisa que ainda não havia acontecido.

Temos uma habilidade impressionante para transformar a felicidade numa promessa. Quando conseguirmos determinada coisa, quando superarmos determinada dificuldade, quando tivermos mais dinheiro, mais tempo, mais segurança. A alegria vai sendo transferida para uma data futura que continua mudando de lugar.

Enquanto isso, a vida acontece com uma indiferença quase ofensiva aos nossos planejamentos.

O café esfria, o cachorro pede para passear, alguém telefona no meio de uma tarefa importante e a chuva começa justamente quando terminamos de lavar o carro. Há contas para pagar, decisões para tomar, problemas que resistem às nossas melhores tentativas de solução. E, em algum momento desse tumulto, alguém faz uma observação absurda e começamos a rir.

Rimos de verdade, até perder o fôlego, até a barriga doer e os olhos lacrimejarem.

Cinco minutos depois, os problemas continuam onde estavam. Nenhuma dificuldade desapareceu, nenhuma resposta surgiu milagrosamente, nenhum compromisso foi cancelado.

A tarde, porém, ficou melhor.

Somos criaturas curiosas. Temos ambições enormes e ficamos contentes quando encontramos dinheiro esquecido no bolso de um casaco. Investigamos os mistérios do universo e perdemos os óculos que estão sobre a nossa cabeça. Discutimos questões filosóficas complicadíssimas e somos capazes de ficar genuinamente ofendidos quando alguém come a última fatia de bolo sem perguntar.

Não vejo por que deveríamos corrigir todas essas contradições. Algumas delas tornam a vida consideravelmente mais interessante.

Tenho a impressão de que a vida continuará exigindo providências mesmo no dia em que eu finalmente conseguir organizar todas as gavetas. E seria uma pena passar tantos anos esperando que ela se comportasse.

Há sempre alguma coisa por resolver. Um plano que não saiu como esperávamos, uma preocupação que insiste em nos acompanhar, uma decisão que ainda não sabemos tomar. A vida possui uma habilidade quase cômica de apresentar novas exigências justamente quando acreditamos ter colocado tudo em ordem.

Ainda assim, continuamos encontrando motivos para marcar um encontro, preparar um café, aceitar um convite, fazer uma viagem ou telefonar para alguém apenas porque sentimos vontade de conversar.

E essas pequenas decisões vão construindo uma existência que nenhum planejamento seria capaz de antecipar.

Penso na quantidade de pessoas que poderiam ter passado despercebidas por nós. Quantas conversas deixaram de acontecer porque estávamos distraídos, apressados ou simplesmente indispostos. Quantas histórias permaneceram desconhecidas porque ninguém tomou a iniciativa de dizer alguma coisa.

A ideia me provoca uma curiosidade enorme sobre o futuro.

Neste exato momento, existem desconhecidos que um dia poderão fazer parte da nossa vida. Estão trabalhando, tomando café, perdendo o ônibus, reclamando do calor ou procurando as chaves que deixaram em algum lugar da casa. Vivem histórias das quais nada sabemos, cultivam hábitos que ainda nos pareceriam estranhos e possuem lembranças que, algum dia, poderão nos contar.

Por enquanto, não significamos nada uns para os outros.

Daqui a alguns anos, poderemos estar sentados à mesma mesa, rindo de uma história antiga, discutindo quem vai pagar a conta ou recordando o dia em que nos conhecemos.

Gosto dessa possibilidade. Há nela uma espécie de entusiasmo tranquilo pelo que ainda está por vir.

Não sabemos quais conversas nos esperam, que amizades nascerão, quais lugares conheceremos pela primeira vez. Existem músicas que ainda se tornarão nossas favoritas, livros que mudarão nossas opiniões, refeições que desejaremos repetir e histórias que contaremos tantas vezes que nossos amigos acabarão aprendendo de cor.

E haverá dias ruins também. Planos que não darão certo, decepções, preocupações e toda a confusão habitual de estar vivo.

Mas a perspectiva de tudo aquilo que ainda podemos experimentar me parece um bom motivo para continuar curioso.

Gosto de imaginar que, em algum lugar, há pessoas com quem ainda vou rir até perder o fôlego. Pessoas que me apresentarão ideias novas, que discordarão de mim com argumentos irritantemente bons, que me convencerão a experimentar comidas estranhas e que, depois de algum tempo, terão liberdade para me dizer que estou repetindo uma história pela terceira vez.

Algumas se tornarão íntimas. Outras passarão brevemente pela minha vida e deixarão uma lembrança agradável. Haverá encontros que não resultarão em coisa alguma e outros que modificarão meus planos de maneira inesperada.

E pensar que tudo isso ainda está por acontecer.

A vida não me deve encontros extraordinários, tampouco prometeu que meus dias serão sempre agradáveis. Mas continua oferecendo possibilidades que não existiam ontem, e há algo de profundamente animador em perceber que nossa história permanece aberta.

Ainda temos pessoas para conhecer, assuntos para descobrir, lugares para visitar, opiniões para mudar e boas gargalhadas para dar.

E, entre tantas coisas que desconheço sobre o futuro, uma me parece especialmente bonita: em algum momento, encontrarei pessoas que hoje não fazem a menor ideia de que existo. Conversaremos pela primeira vez sem imaginar quantas outras conversas poderão nascer daquele encontro.

Algum dia, uma dessas pessoas poderá se sentar à minha mesa com a familiaridade de quem já não precisa pedir licença para pegar mais café. Conhecerá minhas manias, reconhecerá minhas expressões e saberá exatamente quando estou prestes a contar uma história que já contei antes.

E eu me lembrarei de que houve um tempo em que éramos completos desconhecidos.

Não precisaremos fazer nada extraordinário. Poderemos conversar sobre o tempo, reclamar de alguma bobagem ou simplesmente permanecer ali, desfrutando a companhia um do outro.

Espero apenas ter a presença de espírito necessária para reconhecer, enquanto estivermos juntos, a beleza daquele instante.

Porque, entre bilhões de pessoas, milhares de caminhos possíveis e incontáveis circunstâncias que poderiam ter sido diferentes, estaremos ali.

Vivos. Ao mesmo tempo. Compartilhando uma tarde qualquer.

Que sorte a nossa ter coincidido.
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