Entre a Flor e a Lâmina

Tenho engolido muitos "tudo bem" atravessados. Outro dia, alguém me disse que eu precisava ser mais dura. Que o mundo não respeita os gentis. Sorri, mas a frase ficou presa entre os dentes. Talvez tenham razão. Talvez seja mais fácil erguer a voz, bater na mesa, empurrar de volta. Porque ser gentil, às vezes, dói mais do que qualquer ofensa.

Dói quando minha paciência tem sido confundida com fraqueza. Quando minha ternura se torna um campo aberto para quem chega sem cuidado, pisa sem culpa e vai embora sem olhar para trás. Tenho tentado ser abrigo, mas nem sempre encontro refúgio. Enquanto isso, os que falam mais alto, os que exigem sem pudor, os que não têm medo de ferir parecem levar a melhor. E então me pergunto: seria mais fácil ser rude?

Vez ou outra, a tentação surge. A vontade de, só por um momento, devolver na mesma moeda. De largar a leveza e vestir a armadura. Tenho pensado em como seria soltar a lâmina da língua, ser indiferente, permitir que o cansaço fale por mim. Porque, sim, estou cansada, estou exausta, de vida e de alma. Cansa ser sempre aquela que compreende, que cede espaço, que engole o orgulho para manter a paz.

Mas também tenho aprendido. A grosseria alivia no momento, mas pesa depois. A lâmina fere quem está por perto, mas também corta a mão de quem a segura. No fim, sei que ser gentil é uma escolha. E escolha alguma vem sem custo.

Então, mesmo cansada, respiro fundo. Permito-me a raiva, mas não a deixo fazer morada. Seguro o ímpeto de devolver com espinhos aquilo que me feriu. Porque há cansaço em ser flor, sim. Mas, ainda assim, ela cresce. Ainda assim, floresce.

E é nisso que escolho acreditar. Que é possível ser firme sem ser frio. Que posso impor limites sem precisar cortar. No fim, a diferença entre a flor e a lâmina não está na força, mas no que cada uma deixa para trás.

E eu quero deixar perfume, não cicatrizes.