Pessoas e Cidades

08/01/2024

As pessoas são como cidades.

Quando nos envolvemos com elas, quando passamos a conhecê-las intimamente, é o equivalente a caminhar sem mapa por ruas nas quais nunca pisamos, por bairros que não sabíamos existir. O prazer desse passeio inaugural não se repete duas vezes. Você poderá voltar às mesmas ruas muitas vezes, na verdade é ideal fazer isto, mas nenhum outro momento terá a surpresa daqueles instantes iniciais, quando os nossos olhos são puros e o nosso coração é virgem outra vez. Pode-se amar uma cidade a vida inteira, mas é impossível descobri-la duas vezes.

A imagem das pessoas como cidades me ocorreu esses dias atrás, quando estava vendo os vlogs de uma amiga que está se dedicando a redescobrir o mundo. Acabamos por conversar e começamos a prosear acerca de novos relacionamentos, sobre a luz fresca que eles despejam sobre a nossa vida, de como nos despertam a totalidade dos sentidos. Então surgiu a ideia de que as pessoas são como cidades prazeirosas e acolhedoras; às vezes sombrias e chuvosas, que vão sendo exploradas à medida que as conhecemos.

Se olharmos nossos passados, certamente descobriremos ter navegado por diferentes geografias humanas.

Por falar em geografia, acabo de me lembrar da falha de San Andreas que provoca pequenos abalos sísmicos de vez em quando e alguns grandes terremotos de tempos em tempos. Isso com certeza mantém os moradores de San Francisco alertas.

Pensa nisso: Você está todo feliz e contente caminhando pela cidade, e num repente pode perder o chão e ver tudo sair do lugar. É pouco provável que vá acontecer justo quando você estiver lá, mas existe a possibilidade, e isso apesar de ser amedrontador, ao mesmo tempo é deveras excitante. Assim também são as pessoas interessantes: Elas têm falhas.

Penso que pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade linda, limpa, onde tudo funciona e você quase morre de tédio; ou até mesmo são como Paris: vendem a imagem da perfeição, mas ao sair da zona predominantemente turística, logo é possível notar suas sujidades expostas para quem quiser ver. Como meu avô costumava dizer: "Por fora bela viola, por dentro pão bolorento".

Pessoas, como cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. É fundamental que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize. Pessoas, como cidades, precisam ser limpas, mas, não ao ponto de não possuírem máculas. É preciso suar na hora do cansaço, é preciso ter um cheiro próprio, uma camiseta velha para dormir, um jeans quase transparente de tanto que foi usado, um batom que escapou dos lábios depois de um beijo, um rímel que borrou um pouquinho quando você chorou.

Pessoas, como cidades, têm que funcionar, mas não podem ser previsíveis. De vez em quando, sem abusar muito da licença, devem ter seus momentos de insensatez, ser ligeiramente passionais, demonstrar um certo desatino, ir contra alguns prognósticos, cometer erros de julgamento e pedir desculpas depois, aliás, pedir desculpas sempre que errar, para poder ter crédito e errar outra vez.

Pessoas, como cidades, devem dar vontade de visitar, devem satisfazer nossa necessidade de viver momentos sublimes, devem ser calorosas, ser generosas e abrir suas portas, devem nos fazer querer voltar, porém não devem nos deixar 100% seguros, nunca. Uma pequena dose de apreensão e cuidado devem provocar.

No meio deste devaneio, acabei por notar, que nem todas as pessoas são cidades. Algumas serão vastos continentes gelados. Outras, apenas becos sem saída.

Diante dessa imagem poderosa, me pergunto quem sou eu. Um quarteirão deserto e árido? Uma praça com bancos coloridos? Uma cidadezinha preguiçosa plantada num vale? Uma metrópole à beira-mar, varrida pelo vento e pela sirene dos navios? Eu não sei. Não sabemos, na verdade. E nem nos cabe dizer. Na verdade, temos de ser descobertos, nomeados e mapeados. É pelo olhar amoroso do outro que nos revelamos. É no olhar do outro que nos reconhecemos. Como uma cidade. Um país. Um mundo que o outro queira habitar e, esperançosamente transformar em seu porto seguro.