Palavras

29/11/2024


Palavras são leves, dizem. Elas saem da boca em segundos, atravessam o ar quase sem esforço e desaparecem logo depois. Mas será que é mesmo assim? Porque, se você já teve o coração partido por uma frase dita no calor do momento ou foi salvo por uma palavra amiga na hora certa, sabe que palavras, de leves, não têm nada.

Elas têm um peso. Um peso que carregamos por anos, às vezes por uma vida inteira.

Lembro de quando era criança e ouvi de um colega que minha risada era "estranha". Foi uma frase rápida, provavelmente esquecida por ele no minuto seguinte. Mas, para mim, aquela palavra ficou. Passei anos tentando rir mais baixo, menos espontaneamente, com medo de que minha risada chamasse atenção. Uma frase tão pequena e, ainda assim, poderosa o suficiente para me fazer esconder um pedaço de quem eu era.

Palavras têm esse poder. Elas entram em nós sem pedir permissão, encontram um cantinho para se alojar e ficam lá, influenciando como nos vemos e como nos relacionamos com o mundo. Algumas, felizmente, são luzes: elogios que nos fazem sentir mais confiantes, incentivos que nos impulsionam a seguir em frente. Outras, no entanto, são sombras – críticas que não conseguimos esquecer, comentários que nos cortam fundo.

E o mais curioso é que, muitas vezes, quem as disse já nem se lembra. Para quem fala, as palavras são passageiras; para quem ouve, podem ser definitivas.

Outro dia, uma amiga me contou que, quando estava no colégio, um professor disse que ela "não tinha talento para escrever". Até hoje, ela carrega a frase como uma tatuagem indesejada, uma cicatriz que não desaparece. Eu, por outro lado, lembrei de um professor que me disse o contrário: "Você tem jeito com as palavras." Essa frase me acompanhou nos momentos em que duvidei de mim mesma. Era como um abraço silencioso, um lembrete de que alguém, em algum momento, acreditou em mim.

Foi aí que percebi: palavras são como sementes. Algumas crescem como árvores, nos dando sombra e frutos. Outras viram ervas daninhas, difíceis de arrancar. E, às vezes, não sabemos o que plantamos nos outros até que as palavras já estejam crescendo.

Por isso, tenho tentado ser mais cuidadosa com o que digo. Não é fácil – a gente vive com pressa, com cansaço, e, no calor de um momento difícil, as palavras acabam escapando antes de pensarmos no impacto que elas terão. Mas, mesmo assim, tento lembrar que o que parece pequeno para mim pode ser gigante para alguém.

E, ao mesmo tempo, também tenho tentado ser mais gentil comigo mesma, com as palavras que guardo e as que escolho repetir dentro da minha cabeça. Porque, às vezes, somos os nossos críticos mais cruéis. Dizemos a nós mesmos coisas que nunca teríamos coragem de dizer a outra pessoa. E, se palavras têm peso, as que falamos para nós mesmos podem ser as mais pesadas de todas.

Hoje, quando penso no poder das palavras, tento carregá-las com mais consciência. Elas podem ser ferramentas, pontes, abraços. Mas também podem ser armas. Tudo depende de como as usamos. Acho que o segredo é lembrar que, uma vez ditas, elas não podem ser desfeitas. Então, talvez valha a pena perguntar: o que quero plantar com o que digo?

Porque, no fim das contas, palavras são como ecos. Elas viajam pelo ar, mas ficam dentro de quem as ouve. E, para o bem ou para o mal, têm o poder de mudar histórias – às vezes, de forma que nunca imaginamos.