O ventre da ausência

30/05/2025

É curioso como certas palavras, à primeira vista tão opostas, às vezes moram na mesma casa. Saudade e gratidão, por exemplo. Uma parece apontar para o que falta; a outra, para o que preenche. E, no entanto, há dias em que ambas se sentam lado a lado no mesmo banco de praça da alma, dividindo o mesmo silêncio.

Já percebi que, quanto mais me permito viver as coisas com presença, mais espaço deixo para esse tipo de encontro. A saudade não vem só porque algo foi embora; ela vem porque algo foi inteiro. E a gratidão não nasce apenas do que permanece; ela floresce também no reconhecimento da impermanência.

Talvez a consciência da finitude seja justamente o que nos permite agradecer. A gente só entende o valor de um abraço quando ele não está mais ali. Só compreende a importância de uma palavra dita quando o tempo nos impede de repeti-la. E é aí que a saudade e a gratidão deixam de ser contradições para se tornarem irmãs.

Tem dias em que a saudade aperta de um jeito estranho. Não é dor exatamente..., mas também não é leve. É como um peso que a gente carrega no fundo do peito, mesmo sem saber muito bem de onde vem. Às vezes, parece que vem de tudo o que já foi bonito demais para durar. Outras, vem de algo que nem teve tempo de acontecer direito.

E aí, no meio disso tudo, aparece a gratidão. Quieta. Miúda. Como quem não quer interromper a dor, mas só encostar devagar no ombro da gente e dizer: "foi real, né?"

No começo eu achava que era confusão. Como é que dá para sentir falta e agradecer ao mesmo tempo? Mas depois percebi que as duas coisas andam juntas. Que a saudade só existe porque alguma coisa valeu a pena. Que a gratidão, às vezes, só chega depois que tudo passou.

Tem dias em que lembro de certas pessoas e fico em silêncio. Não por não ter o que dizer; mas porque tem lembrança que a gente não traduz, só sente. Como cheiro de café na infância. Como o som de uma risada que já não ouve mais, mas ainda escuta por dentro.

Tem gente que vai embora e, mesmo assim, fica.
Tem momentos que terminam, mas ainda moldam o jeito como a gente ama, espera, confia.
Tem palavras que não foram ditas, mas seguem ecoando.

E é aí que tudo se mistura: a saudade e a gratidão mastigando a mesma memória. Uma pergunta "por que acabou?", e a outra responde "olha o tanto que foi bonito". Não brigam. Não tentam se sobrepor. Só coexistem.
Como se vivessem num mesmo quarto, dormindo em camas separadas, mas com sonhos parecidos.

Acho que viver é isso, no fim das contas. É ter coragem de sentir tudo: o que foi bom, o que faltou, o que sobrou. É não fugir da ausência, mas escutar o que ela tem pra dizer. Porque até o que já foi ainda ensina alguma coisa.

E eu sigo. Levo comigo tudo o que já vivi.
Mas, mais do que isso, levo o que o que vivi fez de mim.