O Tempo
Dizem que o tempo cura tudo. Sempre achei essa frase meio estranha, quase um clichê automático que as pessoas falam quando não sabem o que dizer. Mas, com o passar dos anos, percebi que há uma sabedoria silenciosa nisso. Não que o tempo cure tudo de forma mágica, como se apagasse as cicatrizes ou desfizesse os estragos. Ele não funciona assim. O tempo não cura como um remédio; ele cura como o mar.
Sabe o que quero dizer? No começo, a dor é como uma onda gigante que te arrasta, te joga contra as pedras, te afoga. Você não consegue respirar, e parece que nunca vai acabar. Mas, aos poucos, o mar se acalma. As ondas ainda vêm, mas ficam menores, mais espaçadas. Com o tempo, a maré baixa, e você começa a sentir o chão novamente. A dor não desaparece completamente, mas perde a força. Você aprende a nadar no meio dela.
Lembro da primeira vez em que entendi isso. Foi depois de uma perda muito grande. Nos primeiros dias, o mundo parecia em câmera lenta. Eu andava pelas ruas sentindo que tudo estava fora do lugar – as pessoas rindo, as lojas funcionando, o sol brilhando. Como o mundo podia seguir em frente enquanto eu estava presa naquela dor? Mas o tempo começou a agir, devagar e em silêncio. Primeiro, veio uma manhã em que o café teve gosto de café novamente. Depois, um dia em que consegui rir de uma piada. E, um tempo depois, percebi que aquela dor ainda estava lá, mas já não era o centro de tudo. Ela tinha se transformado em uma sombra, uma memória, uma marca que fazia parte de mim, mas não me definia mais.
O engraçado é que, no começo, a gente resiste ao tempo. Queremos que ele corra, queremos atravessar a dor como quem atravessa uma ponte, do ponto A ao ponto B, rápido e sem olhar para os lados. Mas o tempo não funciona assim. Ele é paciente – e, por mais que tentemos apressá-lo, ele só anda no ritmo que acha necessário. E talvez seja isso que torna sua forma de cura tão especial. Ele nos força a desacelerar, a lidar com o que estamos sentindo, até que, um dia, sem que percebamos, a dor já não dói tanto.
Mas o tempo também não é perfeito. Ele é mestre em suavizar as bordas da dor, mas não apaga nada. Algumas lembranças ficam ali, como uma fotografia antiga: desbotada, mas ainda presente. E acho que isso é bom. As marcas que o tempo não apaga são aquelas que nos ensinam algo – sobre nós mesmos, sobre a vida, sobre o que é realmente importante.
Hoje, quando alguém me fala sobre uma dor que parece insuportável, resisto à tentação de dizer "o tempo cura". Porque sei que, quando estamos no meio da tempestade, essa frase parece vazia, até irritante. Em vez disso, eu digo: "O tempo muda as coisas." Porque ele muda. Ele transforma o que antes era um peso insuportável em algo que conseguimos carregar. Ele transforma o que antes era um grito em um sussurro, uma ferida aberta em uma cicatriz.
E, no final, é isso que o tempo faz: ele não nos leva de volta ao que éramos antes, mas nos ajuda a encontrar uma nova forma de ser. Uma versão de nós que sobreviveu, que aprendeu a viver com a perda, a queda, o erro – e que, talvez, por causa disso, tenha se tornado mais forte, mais leve, mais humana.
O tempo, com sua forma sutil de curar, é como um velho amigo que aparece sem fazer alarde. Ele não resolve nossos problemas, mas fica ali, ao nosso lado, até que, um dia, percebemos que conseguimos respirar novamente.