O Preço das Coisas Simples

12/11/2024

No fim da tarde, enquanto o sol se escondia atrás das montanhas, dona Margarida ajeitava seu pequeno estande de flores na praça. Seus dedos enrugados, firmes e habilidosos, passavam delicadamente pelos caules, tirando as folhas secas e organizando os buquês com cuidado. Ela sabia que, no cair da noite, poucos parariam para admirar suas flores. Ainda assim, todos os dias, por mais que não vendesse uma só rosa, fazia questão de deixá-las impecáveis.

Do outro lado da praça, um grupo de jovens discutia com entusiasmo os planos do próximo fim de semana. Falavam de viagens caras, jantares sofisticados e roupas de marca, tudo com a intensidade de quem acredita que o valor das coisas está no preço que se paga por elas. Para eles, a vida parecia uma constante busca pelo mais caro, pelo mais raro, pelo que brilha mais.

Margarida ouvia a conversa, sem intenção de bisbilhotar, mas também sem conseguir evitar. Ela sorriu. A vida já tinha lhe ensinado, muitas vezes, que o que realmente importava não era aquilo que o dinheiro podia comprar. Aos olhos daqueles jovens, talvez sua barraquinha simples e seus gestos humildes fossem invisíveis. Mas para ela, as flores carregavam a lembrança de um tempo em que os sorrisos eram dados de graça e o valor de um gesto não podia ser medido em moedas.

Certa vez, Margarida havia conhecido um senhor que passava diariamente por ali. Ele era sempre muito sério, um homem de negócios, sempre apressado, sempre distante. Mas, num desses dias comuns, ele parou. Não disse nada, apenas olhou para as flores com um ar pensativo. Escolheu um pequeno buquê de margaridas e pagou sem questionar o preço.

— Para quem são? — perguntou Margarida, quebrando o silêncio com um sorriso curioso.

— Para alguém que já não está mais aqui — respondeu o homem, com um olhar perdido.

E saiu. Desde então, ele voltava sempre, comprando flores, mesmo sem ter ninguém para presenteá-las. Elas eram para si mesmo, uma forma de se lembrar de algo que o dinheiro não poderia mais trazer de volta.

Dona Margarida aprendeu, naquele dia, que o valor das coisas simples é medido pelas memórias e emoções que carregam, não pelas etiquetas que vestem. Seus buquês, aparentemente modestos, eram, na verdade, carregados de significados, cada pétala sendo um suspiro, uma lembrança, um pedaço de uma vida que talvez jamais fosse contada.

Enquanto os jovens na praça continuavam discutindo sobre cifras e status, Margarida olhou para suas flores e, com o mesmo sorriso suave, voltou a ajeitá-las. Ela sabia que o valor da vida estava nas coisas que não podiam ser compradas. No carinho de um abraço, no afeto sincero, na beleza de uma flor que desabrocha em silêncio.

Porque, no fim, tudo o que realmente tem valor não custa nada.