O meio também é lugar
O meio costuma ser esquecido.
Não tem a energia do começo nem o alívio do fim.
O meio é onde nada parece acontecer. Onde não há novidade suficiente para empolgar, nem crise suficiente para justificar cansaço. É um território sem marco, sem legenda, sem narrativa pronta.
E, ainda assim, é onde a maior parte da vida acontece.
Janeiro costuma ser tratado como recomeço. Página em branco. Chance de ser outra pessoa. Mas, passada a empolgação inicial, o mês entra no meio. E o meio não tem música de fundo.
Não é começo.
Não é recomeço.
Não é fechamento.
É continuidade.
E talvez a maturidade da vida esteja em aceitar que nem todo momento precisa ser marcante para ser válido. Que existir no meio não é fracasso, é realidade. A vida não é feita só de viradas. Ela se constrói em permanências longas, discretas, quase invisíveis.
Estar no meio é seguir acordando.
Seguir trabalhando.
Seguir sustentando relações sem clímax.
Sem vitória.
Sem derrota.
O meio ensina paciência porque não oferece recompensa imediata. Ele pede presença sem aplauso. E isso incomoda. A gente prefere os extremos. O meio exige fidelidade ao processo.
Mas o meio também é lugar.
Lugar de amadurecer sem perceber.
Lugar de continuar sem anunciar nada.
Talvez não haja nada de errado com você.
Talvez você só esteja no meio.
E o meio, silenciosamente, sustenta.