O silêncio que ainda sustenta
Há silêncios que não explicam nada.
E a gente aprendeu a chamá-los de ausência.
Quando Deus não responde do jeito que esperamos, rápido, claro, organizado em frases bonitas, a sensação é de que algo falhou. A oração, a fé, ou a gente mesmo. Como se o céu tivesse ficado ocupado demais para ouvir.
Mas nem todo silêncio é vazio.
Alguns são presença sem legenda.
Existe um tipo de silêncio que não empurra, não corrige, não resolve. Ele apenas fica. Como alguém que senta ao lado quando não há mais nada a dizer. E talvez seja esse o silêncio que mais nos desconcerta, porque ele não nos devolve controle.
A gente prefere respostas que orientam, que fecham, que apontam o próximo passo. O silêncio nos obriga a permanecer onde estamos. Sem atalho. Sem efeito especial. Só vida acontecendo.
Na Bíblia, Deus silencia mais do que a gente gosta de admitir.
E, ainda assim, continua sendo Deus.
Talvez o incômodo não esteja no silêncio, mas na expectativa de que toda resposta precise virar frase. Às vezes, a resposta vem como sustentação. Você acorda. Respira. Continua. E não sabe exatamente por quê, mas continua.
Isso também é resposta.
Fé não é sempre ouvir algo novo.
Às vezes, é suportar o intervalo.
O silêncio não significa abandono.
Significa que a relação não depende de ruído constante para existir.
Talvez hoje Deus não tenha nada a dizer.
Talvez hoje Ele só esteja aqui.
E isso muda menos do que a gente gostaria,
mas sustenta mais do que a gente percebe.
Que a gente não fuja do silêncio achando que ele é fracasso espiritual.
Que a gente permaneça mesmo quando a oração não devolve palavras.
Porque há silêncios que não explicam.
Mas sustentam.
E, por enquanto, isso basta.