O Desafio da Autenticidade

12/11/2024


Sempre achei que ser autêntica fosse como usar uma camiseta velha e confortável: fácil, natural, nem precisa pensar muito. Era só ser eu mesma e pronto. Mas com o tempo, percebi que esse "só ser você mesmo" tem algumas pegadinhas.

Veja bem, na infância, eu achava que autenticidade era simplesmente comer o que eu quisesse, não gostar de estudar (confesso que isso nunca funcionou comigo), e fugir das regras usuais quando possível. Um pouco mais tarde, achei que autenticidade era ouvir aquela banda que ninguém mais gostava (aliás, eu também não gostava, mas, sabe como é, parecia autêntico). Depois, vieram os anos do "eu sei o que estou fazendo", quando, na verdade, eu mal sabia o que estava fazendo na hora do almoço. Ser autêntico, descobri, não é bem uma linha reta.

Aí vieram os anos da vida adulta, e, com eles, as expectativas alheias. E é impressionante como elas vêm todas de uma vez, cobrando postura, sucesso, maturidade. "Seja você mesmo, mas seja a melhor versão de você", ouvi uma vez. Como assim? A gente mal sabe quem é, mas já precisa ser a "melhor versão" de alguma coisa?

E foi então que percebi a dificuldade real de ser autêntica. Porque, para começo de conversa, o que é que isso significa? Nos dias difíceis, tenho vontade de responder que, para mim, ser autêntica é me enrolar no sofá com um balde de pipoca e assistir à mesma série repetidamente. Mas logo penso: será que isso é aceitável? Será que esse é o tipo de "autenticidade" que os grandes filósofos do autoconhecimento, as "mentes livres", teriam aprovado? Ou será que, hoje em dia, só consideram autêntico quem acorda às cinco da manhã, faz meditação, toma um suco verde e expõe toda sua rotina nas redes para todos que quiserem ver?

Não, autenticidade não é assim tão simples. A gente acorda, se olha no espelho e pensa: "Vou ser eu mesmo hoje." Só que, em cinco minutos, já estamos questionando se "eu mesmo" não poderia ser "um pouco mais elegante", "um pouco menos falante", "um pouco mais… qualquer coisa que agrade alguém". E assim, lá se vai o nosso compromisso de autenticidade pela janela, substituído por tentativas de atender a todos os "alguéns" do mundo.

Às vezes me pego rindo de mim mesma, do quanto me preocupo em ser aceita enquanto digo que quero ser "só eu". Um exemplo clássico: reuniões de trabalho. Tantas vezes concordei com algo só para evitar polêmica. E depois fico ali, pensando se o meu "eu autêntico" não teria sido mais firme, mais decidido. Quem sabe até uma versão revolucionária que propõe ideias inovadoras, ao invés de um "ótimo, boa ideia" balançando a cabeça.

O mais irônico é que, quando finalmente decidi que seria autêntica, descobri que autenticidade dá trabalho! Precisamos lidar com os olhares tortos, com as caras de espanto, e até com aquele amigo (sempre tem um) que diz "uau, você mudou" – como se você tivesse feito uma escolha radical e ousada de ser você mesmo.

Com o tempo, fui descobrindo que ser autêntico significa aceitar que nem sempre vou agradar, e que tudo bem. E sabe o que mais? Descobri que a autenticidade não é uma pose, uma camiseta que a gente veste para parecer descolado, e que nem sempre estamos 100% seguros sobre quem somos. Às vezes, ser autêntico é mudar de ideia no meio do caminho, reconhecer as próprias dúvidas, e até rir das próprias contradições. Porque, afinal, somos um pouco de tudo.

Então, agora, decidi simplificar. Para ser autêntica, eu escolho pequenos atos: um "não" sincero, um "sim" espontâneo, um silêncio em vez de um "está tudo bem" (quando claramente não está). E talvez a lição mais valiosa tenha sido essa: não existe "versão perfeita". A versão autêntica já é complicada o suficiente.

Hoje, ser autêntica é deixar que essa confusão chamada "eu" se mostre, com um pouco de paciência e uma boa dose de humor. E, se alguém me perguntar sobre o que aprendi, acho que vou dizer que, no fundo, ser autêntico é se divertir com a bagunça – e entender que essa bagunça é o que nos faz únicos.