Cartas que nunca escrevi, mas senti!
Eu tenho um arquivo invisível dentro de mim chamado cartas que nunca escrevi, mas senti, e ele não é feito de palavras organizadas, nem de começo, meio e fim, é feito de frases que eu ensaiei no meio do banho, de respostas que eu mastiguei enquanto alguém falava comigo e que nunca chegaram a existir, de pedidos que eu quase fiz e recuei no último segundo porque não queria parecer fraca, carente, excessiva, dependente, inconveniente, de verdades que bateram na minha garganta com tanta força que chegaram a dar enjoo. Teve um dia, no meio de uma manhã absolutamente comum, em que eu chorei no banheiro do trabalho porque não consegui abrir um e-mail. Não era o e-mail. Era a mão tremendo no mouse, o estômago embrulhado sem fome, o coração batendo curto, como se tivesse desaprendido a respirar direito. Eu fechei a porta da cabine, encostei a testa fria no azulejo e fiquei ali tentando engolir o choro em silêncio, com medo de alguém ouvir, com medo de precisar explicar. Eu pensei, com uma lucidez cruel, que se eu começasse a falar talvez não conseguisse mais parar. E foi exatamente por isso que eu calei. As cartas que nunca escrevi não ficaram guardadas por falta de coragem. Ficaram porque eu aprendi, muito cedo, que sentir demais atrasa, atrapalha, constrange, pesa no ambiente. Eu aprendi a administrar o meu desconforto para que ninguém precisasse lidar com ele.
Essas cartas sempre acabam vazando no mesmo lugar. O travesseiro. As tempestades que só o travesseiro testemunha não são bonitas, nem poéticas, nem cinematográficas. São um tipo de choro torto, sem ritmo, às vezes sem lágrima, só com a garganta fechando e o peito apertando de um jeito que parece físico demais para ser só emoção. Eu já chorei com o celular na mão, encarando a tela apagada, com vontade de mandar uma mensagem que dizia só estou cansada, você pode me ouvir um pouco, e apaguei antes de escrever qualquer coisa, porque uma parte de mim ainda acredita que pedir colo é um risco. De noite, quando o corpo finalmente se deita, não existe mais a performance de firmeza, não existe mais a mulher que resolve, a que aguenta, a que dá conta. Existe um medo meio infantil de não conseguir sustentar tudo para sempre. Existe uma exaustão que não cabe na conversa leve do dia seguinte. Existe um pensamento feio que eu quase nunca admito, mas que aparece com clareza na madrugada. Às vezes eu sinto raiva de quem consegue descansar. Eu sinto raiva de quem não precisa se explicar o tempo inteiro. Eu sinto raiva de quem pede ajuda sem pedir desculpa antes. E logo depois vem a culpa por sentir isso. E, mesmo assim, no outro dia, eu me levanto.
Talvez por isso eu carregue tanta coisa na bolsa. Porque eu tenho medo de precisar de alguém e não ter. Porque eu tenho medo de ficar sem bateria, sem remédio, sem carregador, sem opção, sem saída, sem controle. Porque eu aprendi que estar preparada é a única forma socialmente aceitável de estar assustada. Dentro da minha bolsa cabem documentos para provar que eu existo, chaves para não depender, cadernos para não esquecer quem eu sou no meio da rotina, fones para me proteger do mundo quando ele pesa demais, um batom para esconder o cansaço quando não dá tempo de sentir. Já pensei, mais de uma vez, que se alguém abrisse minha bolsa não encontraria só objetos. Encontraria o retrato exato de uma mulher que não confia que o mundo vai segurar o que nela fraqueja. Encontraria a memória de alguém que aprendeu a se antecipar a tudo porque não podia se atrasar emocionalmente para ninguém.
Foi assim que nasceu a menina que eu inventei para me proteger. Ela não nasceu da imaginação. Nasceu da urgência. Ela sabe engolir desconforto. Sabe responder rápido. Sabe não chorar na frente errada. Sabe minimizar a própria dor com um sorriso educado. Sabe atravessar ambientes hostis sem parecer afetada. Sabe funcionar em lugares onde sentir seria perigoso. Ela é organizada, eficiente, prática, firme. Muito mais firme do que eu me sinto quando estou sozinha comigo. Ela foi construída para caber, para não dar trabalho, para não depender, para não precisar, para não incomodar. E eu não falo dela com raiva. Eu falo com uma espécie de respeito cansado. Porque ela salvou muita coisa. Ela sustentou muita queda silenciosa. Ela me manteve inteira quando eu não tinha escolha.
O problema é que, com o tempo, essa menina foi ocupando espaço demais. E eu deixei. Porque era confortável continuar funcionando. Porque era seguro não precisar de ninguém. Porque era menos humilhante ser forte do que admitir que eu queria ser cuidada. E aqui entra a parte que mais me atravessa admitir. Não foi só o mundo que não me ensinou a me curar. Eu também desaprendi a deixar. Eu desaprendi a ser alcançada. Eu construí tanta autonomia em cima da minha própria sobrevivência que hoje, quando alguém se aproxima de verdade, eu não sei exatamente onde abrir. Eu sei organizar a vida. Eu sei resolver problemas. Eu sei sustentar estruturas. Mas eu não sei mais pedir presença sem transformar isso em culpa. Eu não sei mais dizer estou precisando sem tentar justificar antes. Eu não sei mais descansar sem vigiar o entorno. Existe em mim um estado permanente de prontidão, como se algo fosse sempre prestes a desmoronar.
E isso cobra um preço que não aparece nas narrativas bonitas sobre maturidade emocional. Cobra no corpo que não relaxa. Na respiração curta. Na mandíbula travada no meio da tarde. Na irritação sem causa aparente. Na dificuldade de sentir prazer sem pensar na próxima demanda. Cobra no medo de parar e perceber que talvez eu esteja sustentando mais do que deveria. Cobra, principalmente, na sensação de estar sempre um pouco inacessível, mesmo quando eu estou cercada de pessoas.
Hoje, quando penso nas cartas que nunca escrevi, eu percebo que não era falta de palavras. Era excesso de adaptação. As tempestades que só o travesseiro testemunha não são fraqueza. São acúmulo. O universo que eu guardo na bolsa não é capricho. É estratégia de sobrevivência. E a menina que eu inventei para me proteger não é vilã. Ela foi a única possibilidade quando o cuidado não estava disponível. Mas talvez a parte mais difícil de crescer não seja aprender a aguentar mais. Seja, justamente, aprender a desmontar aquilo que funcionou por tempo demais.
Porque chega um ponto em que sobreviver já não basta. E é nesse ponto que algo começa a se deslocar por dentro. As cartas começam a querer existir, mesmo que ainda não ganhem papel. O choro começa a pedir espaço fora da madrugada. A bolsa começa a ficar um pouco mais leve, não porque eu precise de menos coisas, mas porque eu começo, muito devagar, a confiar que talvez eu não precise carregar tudo sozinha. E a menina que eu inventei para me proteger começa a cansar.
Talvez a verdade mais difícil deste texto não seja que eu aprendi a resistir. É que eu aprendi a me fechar tão bem que agora preciso reaprender a abrir. Não para o mundo inteiro. Não para todo mundo. Mas para alguns poucos lugares seguros onde eu não precise provar força, onde eu não precise organizar minha dor para que ela seja aceitável, onde eu não precise ser eficiente para merecer afeto.
Eu sigo aprendendo a me curar, não para funcionar melhor, não para performar equilíbrio, não para virar uma versão mais produtiva de mim mesma. Eu sigo aprendendo a me curar para tentar, com atraso e com medo, deixar que alguém finalmente me alcance.
No fim, talvez a vida não seja outra coisa além disso, um longo e silencioso processo de cura de tudo o que aprendemos a suportar sem nunca termos aprendido a cuidar.