Não quero viver em guerra.

Não quero viver em guerra. Mas também tenho medo de existir em público com a minha verdade.

Eu não quero viver em guerra. Eu só queria viver. Parece pouco, mas é um gesto imenso quando existir em público com a própria verdade virou um risco calculado. Um risco que a gente mede antes de falar, antes de escrever, antes de discordar, antes de respirar mais fundo numa sala em que todos parecem já saber exatamente o que pode e o que não pode ser dito. Eu atravesso os espaços como quem pisa em chão instável, com a sensação permanente de que qualquer frase pode ser usada contra mim e de que qualquer silêncio também será lido como posição.

Porque não é só opinião. É corpo. É história. É memória. É o jeito como eu fui aprendendo a existir sem proteção.

Existe um cansaço específico em quem não quer guerra, mas também não aceita morrer em silêncio. Não é o cansaço do embate. É o cansaço da vigilância. Do filtro interno que nunca desliga. Da pergunta que se repete como um tique nervoso por dentro. Eu falo agora? Eu aguento o que vem depois? Eu tenho energia para explicar o óbvio? Eu vou ser chamada de exagerada, sensível demais, radical demais, agressiva demais, dramática demais? Sempre demais. Nunca adequada.

O medo de existir em público com a minha verdade não é timidez. É memória. É ter aprendido, no corpo, que se expor custa caro. Que se posicionar cobra juros emocionais. Que nem todo mundo quer escutar. Muita gente só quer vencer. E quando a conversa vira disputa, a minha vida vira argumento. A minha dor vira exagero. A minha história vira opinião descartável.

Eu não quero guerra. Não quero transformar cada fala em trincheira. Não quero fazer da minha existência um panfleto. Eu só quero ser inteira sem pedir licença. Mas descobri cedo que ser inteira, num mundo que politiza até a respiração de quem não cabe no centro, é um gesto profundamente incômodo.

Porque viver num mundo político não é apenas discutir governo, votar ou compartilhar notícia. É perceber que o meu direito de existir com dignidade passa por decisões que nunca foram feitas por mim. É entender que o tom que me pedem, a calma que me exigem, a neutralidade que me oferecem quase sempre servem para proteger quem não precisa se explicar. A paz que me vendem costuma ser uma paz condicionada. Fique em paz, desde que não confronte. Fique em paz, desde que não exponha. Fique em paz, desde que não desestabilize.

Mas como se constrói paz quando a própria existência é tratada como excesso?

Eu sinto medo, sim. Medo de perder vínculos. Medo de ser lida fora do que sou. Medo de ser reduzida a um recorte pobre daquilo que penso. Medo de virar alvo. Medo de virar piada. Medo de virar inimiga. Medo de virar silêncio também. Porque existe um ponto em que o silêncio começa a doer mais do que a rejeição.

O mundo não vê, mas dentro de mim acontece uma negociação diária entre o desejo de me proteger e a urgência de não me trair.

Não quero viver em guerra. Mas também não aceito que o preço da sobrevivência seja o meu apagamento. Não aceito aprender a modular minha verdade até que ela caiba no desconforto dos outros. Não aceito suavizar a minha voz para que ela não pareça perigosa. Não aceito que a minha sensibilidade seja tratada como fragilidade política, quando é justamente ela que ainda me mantém humana num cenário que lucra com endurecimento.

O medo de existir em público com a minha verdade não é covardia. É inteligência emocional num ambiente hostil. Mas também não pode ser casa permanente. Porque quando a gente se acostuma a se calar, algo dentro começa a encolher. Vai ficando menor. Vai aprendendo a sobreviver em versões reduzidas de si.

E eu cansei de me diminuir para não produzir ruído.

Não quero guerra. Mas também não aceito a pedagogia da obediência disfarçada de maturidade. Não aceito a chantagem emocional da harmonia. Não aceito a ideia de que falar sobre injustiça cria conflito, enquanto conviver com ela em silêncio seria sinal de equilíbrio.

Equilíbrio para quem?

Existe um tipo de coragem que não grita. Ela treme. Ela hesita. Ela fecha a publicação antes de postar e abre de novo. Ela escreve, apaga, reescreve. Ela sente o coração acelerar antes de dizer algo simples como eu não concordo, eu penso diferente, isso me atravessa, isso me machuca, isso me afeta. Existe uma coragem que não quer ser heroína. Só quer continuar se reconhecendo no espelho.

E é aqui que a pergunta finalmente deixa de ser vaga.

Qual é a minha verdade.

A minha verdade é que eu não nasci para caber no silêncio confortável dos outros.

A minha verdade é que eu existo inteira, mesmo quando isso incomoda.

A minha verdade é que dignidade não é opinião.

A minha verdade é que meu corpo, minha história, minha sensibilidade e minha voz não são exagero, são território.

A minha verdade é que eu não devo lealdade à harmonia que me apaga.

A minha verdade é simples e, por isso mesmo, perigosa neste mundo.

Eu quero viver sem pedir permissão para existir.

Eu ainda tenho medo de existir em público com a minha verdade.

Mas hoje eu tenho mais medo ainda de passar a vida inteira existindo apenas em privado.