Nada

O nada não chega como tragédia. Ele chega como normalidade.

Você acorda. O corpo levanta antes da vontade. O pensamento vem atrasado. — Vamos. — Vamos.

Escova os dentes como quem cumpre um ritual mínimo de humanidade. Trabalha. Responde. Resolve. Não porque quer, mas porque aprendeu que querer cansa mais do que continuar. O nada se instala aí: quando a vida vira procedimento e ninguém estranha.

Chamam isso de equilíbrio emocional. Por dentro, a conversa é outra: — Tá tudo bem. — Tá mesmo? — Tá aceitável.

Aceitável é outra palavra perigosa. Ela não promete vida, só evita conflito. É o ponto em que você não sofre o suficiente pra sair, nem vive o bastante pra ficar.

O nada não dói. E essa é a sua violência. Ele não interrompe, não implode, não faz escândalo. Ele só seca. Vai retirando o gosto das coisas sem avisar. Um dia você percebe que tudo ainda existe, mas nada chama. Você continua acreditando, inclusive. Continua orando.

— Deus, me guarda. Silêncio. — Amém.

Não é abandono. É recusa.

Deus não impede o erro. Nunca impediu. Ele não segura sua mão toda vez que você escolhe por medo, não trava a porta que você insiste em não atravessar, não interrompe decisões que nascem pequenas e vão ficando definitivas com o tempo.

O que Ele faz é mais desconfortável: Ele não endossa.

Ele não confirma. Não aplaude. Não chama de propósito o que nasceu de covardia.

A gente gostaria de um Deus mais interventivo. Um Deus que impedisse escolhas erradas, que gritasse quando a gente começa a se esconder atrás da permanência. Mas esse Deus não existe — ou, se existe, não é o que encontramos nas Escrituras.

— Mas eu fiquei. — Ficou porque confiou ou porque teve medo de perder o pouco que tinha?

No nada, a fé perde o palco. Não tem música, não tem sensação, não tem sinal verde do céu. — Continua. — Por quê? — Porque continuar não exige coragem imediata.

Aqui mora a ideia que a gente evita admitir: permanecer também pode ser uma forma sofisticada de erro. Um erro socialmente aceito. Espiritualmente justificável. Um erro que não parece erro porque não provoca escândalo.

Você chama de fidelidade. Deus chama de escolha. E escolhas têm consequências, mesmo quando feitas em nome d'Ele.

Talvez o silêncio de Deus não seja mistério profundo. Talvez seja ética. Deus não compactua com aquilo que você insiste em sustentar por medo, mas também não te impede. Ele respeita a liberdade até o ponto em que você precise assumir o peso dela.

Porque há vazios que não pedem milagre. Contrariando tudo, eles exigem responsabilidade.

— Eu fiquei porque era mais seguro. — Eu chamei de maturidade o que era adiamento. — Eu chamei de vontade de Deus o que era incapacidade de decidir.

O nada sustenta essas confissões sem responder nada. — É isso que você escolhe?

Não há consolo aí. Só clareza. E clareza não salva ninguém só impede a mentira.

Talvez o nada seja o lugar onde Deus deixa de ser álibi. Onde Ele não protege você das consequências, mas também não te abandona a elas. Ele permanece como presença não negociável.

— Então Deus estava comigo? — Estava. — Mesmo assim? — Especialmente assim.

Isso é fé crua. Viver sabendo que Deus não impede seus erros. Crer sabendo que Ele não vai chamá-los de acertos. Permanecer sem transformar medo em virtude.

O nada não é o fim. É o ponto onde não dá mais pra culpar Deus pelas escolhas feitas em silêncio.

E depois disso, não dá mais pra fingir.

Nem com Ele. Nem consigo.

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