Hipocrisia e Religiosidade

Tenho uma vizinha religiosa que se acha superior a todos os outros viventes da terra (De fato, não é raro ver ela em suas caminhadas pelos arredores com uma bíblia na mão amaldiçoando a qualquer um que cruzar seu caminho). Tal pessoa é melhor que qualquer forma de segurança que tenho em minha casa, pois se uma única pessoa aporta em nosso andar e aperta a campainha de qualquer um dos vizinhos a qualquer hora do dia ou da noite, ela já aparece com seus olhinhos julgadores e fofoqueiros para ver quem chegou e logo voltar murmurando para sua toca. E essa semana parei para prestar mais atenção em tal comportamento fofoqueiro e inquisidor de pessoas como ela em relação a vida alheia.
Na maior parte do tempo elas se acham no direito de julgar e sentenciar a vida de todos, pelo simples fato de regularmente ir a um templo para esquentar os bancos (honestamente não acho que tais pessoas são praticantes verdadeiras de religiões). O mais interessante é que quase sempre aparecem com os mesmos discursos "Deus não aprova" "Deus não permite" "Deus diz que é pecado" … É sempre Deus, Deus e Deus; mas não seria você que usa o seu nome em vão como um escape, para poder apontar quem está a sua volta como imperfeito?
Ao ver tais atitudes pequenas de tais indivíduos, inevitavelmente me pergunto o seguinte: Será que somos tão perfeitos e superiores para termos plenas condições de sair julgando a vida alheia a torto e a direito?
A sua vida é realmente um exemplo? Nada consta a seu respeito? Quando você sai de sua personagem social não aparece nenhuma macula? Você tem a total condição para arremessar a primeira pedra? Será que todos erram, e só você é a criatura mítica que é a perfeição em carne e osso e por isso, está sempre a defender a tal da boa moral, a igreja, a família, os bons costumes?
Jesus já dizia em seus sermões: "Como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! "
Quando falamos de defesa da família sempre me pergunto: desde quando a família precisa ser defendida? Aliás defendida de quem ou do que? Ora, todos são livres para constituir uma família, da mesma forma que também somos livres para não a constituir. Ah, ou será que você, uma ilustre pessoa de bem estaria se referindo que família é somente a junção de homem+mulher = crianças. Felizmente tenho que dizer que a época para a difusão de tal pensamento arcaico já passou a tempos. É família quem ama os de gênero igual, é família quando há crianças sob sua responsabilidade. Crianças essas que foram geradas por pais da família tradicional tão defendida por aí que não as quiseram.
Ao falar da tal moral que eles tanto alegam defender, me pergunto sempre: Qual moral? Seria realmente plausível dizer aos outros como se deve viver? Será que só há moral a partir do momento em que todos vivam de acordo com as suas expectativas, suas crenças e ideologias? Sim! Essas pessoas se julgam tão puras, santas e incorruptíveis que acabam por se colocar sempre acima do bem e do mal. Bem, não sei se tais sujeitos percebem, mas a tal da moral que tanto impõem aos outros falta e muito neles. Em realidade deixo aqui um questionamento: Como alguém pode se julgar um exemplo a ser seguido, se lhe falta humildade e respeito a individualidade alheia, e um pouco mínimo de boa vontade para ao menos tentar entender o próximo. Como fica a sua moral, sem nenhum pouco de humanidade?
O que seria também esses supostos bons costumes tão amplamente defendidos por tais criaturas? Eu digo sempre: mostre ao mundo os seus bons e respeitosos costumes e o seguiremos. Se a pessoa parar um segundo para pensar, verá o que fez até tal momento: apontou, criticou, tentou controlar a vida de outrem e por vezes até achincalhou quem não seguiu tais regras vomitadas por elas. As ditas "pessoas de bem" realmente se consideram porta vozes e representantes de Deus! Mas esquecem de se perguntar: Alguém tem mesmo tanta moral para isso?
Eu imagino que Deus sendo um ser onisciente, onipotente e onipresente, não esteja precisando de seres que só fazem gritar, caluniar, julgar e condenar como seus representantes.
Será que o divino realmente precisa de figuras medíocres para fazer valer seus ensinamentos?
Sou totalmente a favor do" Viva e deixe viver ". Por que condenar, perseguir e incitar o ódio, se cada um tem o direito de viver sua vida? Afinal, o livre arbítrio não é considerado divino? A salvação não é individual?
Porque se for reparar bem, mas bem mesmo, quem é feliz de verdade, quem está realmente satisfeito com a vida que leva, não perde tempo tomando conta da vida dos outros e isso é fato comprovado!
Jesus é conhecido até pelos povos não cristãos como um pregador do amor e da paz, o que realmente é. E por que grande parte dos seus seguidores não podem fazer o mesmo? Vivemos em mundo doente, diariamente nos deparamos com inúmeras perversidades, então não seria inteligente nos empenhar em amar as pessoas, distribuir boas energias por aí ao invés de perder tempo para ditar o que é certo e o que é errado na vida dos outros?
Devemos baixar nossas armas, despir nossas armaduras, e levantar a bandeira de paz. É muito melhor manter a união, do que estar com a razão, e de querer estar sempre certo, devemos desistir da síndrome de ser "o dono da verdade". O julgamento só a Deus pertence e somente com Ele tal tarefa deve permanecer.
Neste ponto do devaneio é quando me aparece a pergunta: E as orações como vão? Para que servem mesmo? A pessoa julga, aponta, calunia e até mesmo achincalha, mas segundo ela, quem está distante de Deus é o outro. Todos, menos ela. Sabe por quê? Por não compartilhar dos seus mesmos hábitos, pois ela está todos os dias na igreja, está frequentemente em orações e com a mesma boca que ora, que louva, que suplica, emite palavras torpes para cuidar da vida alheia e ainda tem coragem de se gabar incessante e incansavelmente como um ser de fé.
Se você é crente em Jesus, mas é um intolerante com ar de superioridade, sinto te informar, mas você é consequentemente ingênuo, por achar que os demais precisam de sua aprovação para viver. Mas na cabeça de tais pessoas todo este comportamento é anulado somente por frequentar regularmente alguma cátedra. Então está justificado falar mal das pessoas, porque você pode, afinal, está tão santificado que já pode virar beato.
Mas o interessante, é que muitas vezes esses "santos" possuem um passado duvidoso, o qual muitos de nós não fazemos nem 1% de tudo o que já aprontaram, mas está tudo certo, o que ninguém viu, ninguém sabe. Pois na mente dessas pessoas, frequentar um templo religioso já anula tudo isso… quer saber? Suas orações jamais vão apagar o que você já foi, mas poderiam muito bem servir para consertar o que você ainda é.
Pare de apontar, guarde suas críticas e engula suas calúnias. Porque a máscara da sua devoção é falha, e todos conseguem enxergar. Concluindo, o seu interior desfalece na indignidade da hipocrisia, mas você se ilude na fantasia da sua suposta santidade, e pensa que consegue enganar o mundo.
Ah vale lembrar né!! Os erros dos outros são apenas diferentes dos seus.