Gratidão
Engraçado como a palavra "gratidão" ficou na moda, como se fosse um mantra mágico, uma dessas soluções universais para todos os nossos problemas. No começo, confesso que eu achava exagero. Parecia algo meio forçado, como se a gente tivesse que viver repetindo "gratidão, gratidão" para se convencer de que a vida é maravilhosa. Mas, aos poucos, percebi que a gratidão é mais do que um mantra, é um exercício – um jeito de enxergar a vida que muda tudo ao nosso redor.
A verdade é que, no cotidiano, estamos tão acostumados a correr atrás do próximo objetivo, do próximo item na lista, que nem percebemos o que já conquistamos, as pessoas que estão ao nosso lado ou as pequenas alegrias que nos cercam. Vivemos de olho no que falta e, muitas vezes, esquecemos o que já temos. E assim, sem notar, nos perdemos em um eterno "não é o suficiente".
Lembro de um dia particularmente corrido, uma daquelas semanas em que tudo parecia dar errado. Estava atrasada para o trabalho, o trânsito estava insuportável e, para completar, havia esquecido o guarda-chuva em casa justo no dia em que o céu resolveu desabar. Fiquei ali, parada na chuva, com aquela vontade de reclamar de tudo: do trânsito, do tempo, da vida. E foi exatamente ali que algo me surpreendeu. Enquanto eu me encolhia embaixo de uma marquise, vi uma senhora passar por mim com um sorriso enorme, usando uma capa de chuva toda colorida. Ela olhou para o céu, estendeu a mão para sentir a água e soltou: "Ai, como é bom sentir essa chuva fresquinha, não é?"
Na hora, me perguntei como ela podia estar tão alegre em um dia daqueles. Mas aquela frase ficou comigo. Talvez o problema não fosse a chuva, nem o trânsito, nem o guarda-chuva esquecido. Talvez o problema fosse minha falta de jeito para enxergar o lado bom nas coisas.
Desde então, comecei a praticar um pouco mais de gratidão, e, acredite, foi aos poucos que vi o efeito disso. Não era sobre dizer "obrigada" por tudo, mas sobre reconhecer a beleza nas pequenas coisas que acontecem ao nosso redor todos os dias, sem que a gente perceba. O primeiro gole de café pela manhã, uma conversa boa no final do dia, uma mensagem carinhosa de alguém que a gente ama, um pôr do sol que colore o céu de um jeito inesperado. Pequenos milagres que, sem gratidão, passam despercebidos.
E o curioso é que, à medida que fui treinando o olhar para encontrar esses momentos de gratidão, comecei a perceber como a vida, de fato, tem muito a oferecer. Não que os problemas desapareçam, longe disso – eles continuam lá, firmes e fortes. Mas o peso muda, a perspectiva muda. A gratidão não resolve tudo, mas ajuda a equilibrar a balança.
Hoje, quando as coisas não vão bem, tento parar um momento e observar: o que, naquele caos, ainda merece um "obrigada"? Talvez seja o café quentinho que alguém fez para mim pela manhã, ou um simples "bom dia" trocado na rua com alguém desconhecido. E, de repente, esse pequeno "obrigada" vai ganhando força, vai iluminando as sombras do que estava tão complicado. Gratidão, percebo, é um jeito de lembrar que a vida é feita de detalhes e que, muitas vezes, a paz está em apreciar esses detalhes.
Afinal, não se trata de fingir que tudo é perfeito, mas de aceitar que nem tudo precisa ser perfeito para que possamos sentir gratidão. Talvez seja esse o verdadeiro valor dela: um lembrete constante de que, apesar dos dias difíceis e dos desafios, ainda temos motivos para agradecer. E, ao agradecer, nos permitimos perceber a beleza do que está aqui e agora.
Talvez seja essa a magia da gratidão: ela não precisa ser exagerada, não precisa ser anunciada. Ela só precisa ser vivida, de dentro para fora, em cada pequeno momento que temos a sorte de experimentar.