Espólios do Tempo
O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, enquanto a praça, quase vazia, ficava envolta em silêncio. Num banco de madeira gasto, sentavam-se um avô e seu neto. O menino, inquieto, olhava ao redor, curioso, enquanto o avô, com o olhar tranquilo, observava o pôr do sol como quem já tinha visto aquela cena muitas vezes, mas ainda se deixava envolver pela beleza do momento.
As árvores altas, com troncos retorcidos e galhos cheios de folhas, estavam ali há tanto tempo quanto ele. O vento suave fazia as folhas dançarem, e o avô suspirou, quebrando o silêncio.
— Sabe, menino... o tempo passa, e nada escapa ileso — disse o avô, a voz baixa, como se falasse mais para si mesmo do que para o neto.
O garoto virou o rosto, surpreso pela quebra do silêncio. Ele franziu o cenho, sem entender exatamente o que o avô queria dizer.
— Como assim, vô? — perguntou ele, com a sinceridade típica de sua idade.
O avô sorriu de leve, sem tirar os olhos do horizonte, onde o sol descia devagar.
— O tempo… ele molda tudo — disse o avô, fazendo uma pausa. — Ele esculpe, apaga, muda as coisas. Deixa marcas. Olhe para mim — ele tocou de leve o próprio rosto. — Essas rugas aqui? São marcas que o tempo me deu. E as cicatrizes? Ah, são troféus das batalhas que enfrentei na vida.
O menino olhou para o rosto do avô com atenção, tentando enxergar as histórias por trás das rugas e cicatrizes, como se elas fossem pequenos mistérios a serem desvendados.
— E essas marcas... as que a gente não vê? — perguntou o garoto, curioso.
O avô soltou uma risada suave, e seu olhar se suavizou ao encarar o neto.
— Essas são as mais profundas, meu filho — respondeu ele. — Elas ficam guardadas aqui dentro — o avô levou a mão ao peito, como se estivesse segurando algo invisível. — São as lembranças, as saudades, as lições. O tempo vai deixando essas marcas na gente, como espólios de uma guerra que ninguém vê. A gente vai vivendo e vai carregando essas marcas, sem nem perceber direito.
O menino ficou em silêncio, processando as palavras. Espólios… Parecia algo importante, mas difícil de entender. Ele olhou para o avô de novo, tentando ver essas "cicatrizes invisíveis".
— Espólios, vô? Tipo os tesouros que os piratas encontram? — perguntou ele, franzindo a testa.
O avô sorriu com ternura, balançando a cabeça.
— Mais ou menos. Mas ao invés de ouro e joias, são lembranças. São as coisas que a gente viveu, as lições que o tempo nos ensinou. Cada momento que passamos, cada história que guardamos, é como um pedacinho desse tesouro. Só que é um tesouro que não se vê, mas que fica com a gente pra sempre.
O menino ficou quieto por um tempo, pensativo. Ele olhou para o pôr do sol, onde o último fio de luz estava quase desaparecendo, e depois voltou para o avô.
— E dói, vô? — ele perguntou, com a inocência que só as crianças têm.
O avô olhou para o céu, suspirando, antes de responder.
— Às vezes, dói sim — disse ele. — Dói quando lembramos das coisas que já passaram, de pessoas que já foram embora. Mas também tem muita coisa bonita nesses espólios, sabe? As histórias que vivemos, as lições que aprendemos… elas nos fazem ser quem somos.
O menino olhou para o avô com atenção, absorvendo cada palavra, mesmo que ainda não compreendesse tudo.
— Quando você é jovem, parece que o tempo é infinito, como se tivesse todo o tempo do mundo — continuou o avô, ajeitando o casaco. — Mas, conforme os anos passam, você percebe que ele escapa pelas mãos, cada vez mais rápido. E se você não tiver um propósito, algo que te mova, parece que o tempo vai embora sem nem deixar rastro.
O menino franziu a testa, confuso.
— Propósito? O que é isso, vô?
O avô sorriu, um sorriso cheio de carinho, como se estivesse se vendo naquela pergunta.
— Propósito, meu filho, é aquilo que te faz querer levantar da cama todos os dias. É aquilo que faz o tempo valer a pena. Quando você encontra algo que ama, que te faz feliz, o tempo deixa de ser um inimigo. Ele continua passando, claro, mas você sente que está construindo alguma coisa. Que está vivendo de verdade.
O menino ficou em silêncio, refletindo sobre as palavras do avô. Ainda não sabia muito sobre propósito, mas começava a sentir que aquilo era importante, mesmo que não soubesse exatamente como.
— Então, o tempo não é só algo que a gente perde? — perguntou o menino, com um tom esperançoso.
O avô balançou a cabeça lentamente, olhando para o neto com um brilho suave nos olhos.
— Não, meu filho. O tempo é o que a gente faz com ele. Cada dia que passa é um presente, mas a escolha do que fazer com esse presente é nossa. Se você usar bem o seu tempo, ele se torna uma ferramenta pra construir sua vida, suas histórias. E cada uma dessas histórias é como uma peça desse tesouro invisível que o tempo nos dá.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, enquanto o sol desaparecia de vez e as primeiras estrelas começavam a surgir no céu. O menino olhou para cima, sentindo que aquela conversa tinha mudado algo dentro dele, mesmo que ainda não soubesse dizer exatamente o quê.
O avô, com um olhar calmo e um suspiro de contentamento, pôs a mão no ombro do neto.
— Um dia, você vai lembrar dessa noite — disse o avô, com um sorriso tranquilo. — E quando esse dia chegar, talvez você entenda melhor o que eu estou dizendo. Quem sabe, um dia, você vai estar sentado aqui, contando suas próprias histórias para os seus netos. Porque, no final, o que o tempo deixa pra gente são essas histórias. E elas valem mais que qualquer tesouro.
O menino sorriu, e ambos se levantaram devagar, deixando o banco para trás. Enquanto caminhavam de volta para casa, lado a lado, o garoto olhou para as estrelas que agora brilhavam mais forte no céu escuro, sentindo algo diferente. Talvez ele ainda não entendesse tudo, mas começava a perceber que o tempo não era apenas algo que passava, mas algo que se podia viver, construir e carregar consigo.