Devaneios em Janeiro

08/01/2024

 Domingo logo cedo ao pegar meu jornal para ler, percebi que com menos de 10 dias, o ano já ficou velho. Como sempre o assunto trend do momento tem sido política e violência e por mais que as notícias sejam a forma de nos mantermos atualizados e tenha seu quinhão de importância na sociedade, temos que concordar que hora ou outra cansa e enjoa ler tanta coisa ruim e negativa todos os dias. Para mudar um pouquinho disso resolvi vir aqui, no meu cantinho e falar não de questões políticas ou partidárias, mas sim falar de como eu me sinto e penso acerca da vida, que acaba sendo a base para todas as minhas opiniões.

Sou aversa a rótulos, sempre fui. Talvez essa aversão tenha surgido por até certo ponto da vida ter me sentido extremamente deslocada por não conseguir me encaixar em grupos, conceitos e ideologias. Há sempre em mim um desconforto de representar ou me fazer representar por uma sigla. E todas as vezes anteriores que isso se fez necessário ou que decidi por seguir esse caminho a sensação não foi legal. Pra mim é simples, sou uma mulher que ama pessoas e defende o que é correto (deixo evidenciado aqui o correto, porque o certo às vezes só é proveitoso para quem está no topo da cadeia alimentar).

Muitas vezes, pessoas tão próximas de mim não compreendem meus processos. Eu considero comer um dos atos mais prazerosos desta vida, mas independente de ser obesa, como pouco, muito pouco e não me mobilizo por comida, muitas vezes até me esqueço de comer por estar envolvida em alguma atividade que me encante. Eu considero a liberdade uma das coisas mais importantes que existem, mas nunca me incomodou estar comprometida com alguém, talvez porque eu me sinta segura em relação a minha própria liberdade. Eu sei que dinheiro é algo fundamental para se viver, mas tenho certeza que um celular de marca famosinha ou um carro importado não me farão mais feliz. Pra ser sincera, esses são dois itens que não me dizem muita coisa, quase nada. Um telefone que me permita falar com as pessoas que eu amo e tirar umas fotos e um carro que seja econômico e pequeno me agradam bem mais além de que levo em conta que sem carro posso facilmente me movimentar de ônibus e trem.

Gosto de roupas, mas aprecio muito mais usar aquelas que me tem grande valor sentimental. Sapatos? Meia dúzia de pares são mais do que suficientes, quase um luxo, sei que só vou acabar usando um par de tênis quase roto e eventualmente um par de saltos! E entre um apartamento de acabamento refinado e uma casa mais simples, mas com um belo quintal com frutíferas e canteiros de ervas e flores, sem dúvida eu ficaria com a segunda opção. Meu luxo são livros, um serviço de streaming qualquer, cristais, vidros com ervas, óleos essenciais e os temperinhos caseiros que acabo inventando quando entro na cozinha. Luxo, pra mim, são pequenas antiguidades de família; aqueles relicários dos meus avós, panelas de barro e alguns utilitários de cozinhas, aquelas frescurinhas que tornam a vida mais prática. Luxo é uma playlist daquelas para relaxar, pra dar uma viajada na maionese sem nem sair do lugar.

Não quero um emprego para ganhar fortuna e ficar trancada em um escritório o dia inteiro. Não quero ser famosa, não quero ser pop star. Não quero ganhar tanto que precise me preocupar com dinheiro, quero o suficiente para não precisar pensar nele. Não quero a maior parte das coisas que a maioria ambiciona, mas quero coisas que são muito mais preciosas. Pra mim. Só pra mim.

Sempre me arrepio quando alguém usa palavras aparentemente inofensivas como progresso, sucesso, subir na vida, cidadão de bem... Elas ganharam conotações, no mínimo, duvidosas para mim no decorrer da vida. Acho que poder de compra não é qualidade de vida, mas acho que muitas pessoas deviam ter coisas que antes não tinham. E acho que criticar a elevação do poder de compra de pobres e miseráveis é cômodo, muito cômodo para quem já tinha a vida resolvida bem antes de nascer.

Eu sei que nem tudo que é certo é justo e nem tudo que é justo é certo. Especialmente porque esses são conceitos que mudam de acordo com a época, a cultura e a cabeça de cada um. Mas sei a importância do que é sábio, do que é solidário, do que considera um ser humano mais importante do que qualquer ideologia. Mas sei também que o que chamamos de ser humano ainda tem uma parte muito imatura, muito egoísta, egocêntrica e, de acordo com as últimas evidências, muito pirracenta, muito agressiva, isso sem falar da mente retrógada e fechada que não lhe permite a evolução. Quando a empatia for talento e dom de todas as pessoas, o mundo se transformará.

Não acredito em mudanças que venham de um governo, de uma religião, de uma ideologia. Acredito na transformação pessoal, individual e na formação, por reverberação, de uma nova geração com uma nova forma de ser e de se relacionar com os outros. Eu acredito que é impossível ser feliz sozinho, não porque seja necessário ter um companheiro ou companheira para ser feliz, mas porque é impossível, pra mim, ser totalmente feliz enquanto eu souber que existem tantas pessoas infelizes no mundo. Eu quero ser feliz junto, quero que as felicidades se motivem e multipliquem, mas pra isso as pessoas precisam entender que felicidade não é limitada nem disputada.

Eu creio, de verdade, que não poderei influenciar o mundo se não faço meu jardim florescer. Não acredito que sou digna de lutar pela paz se faço guerra dentro de casa e com o meu vizinho. Se não posso ser justa e sábia com os mais próximos, como posso cobrar justiça e sabedoria dos outros? Eu peço do mundo o mesmo que ofereço, nem mais, nem menos. Eu rezo por equilíbrio e harmonia todos os dias. Eu tento vibrar amor para todo mundo, até mesmo aqueles que prefiro manter distantes. E sempre que olho para o céu, lembro de pedir misericórdia e não justiça, porque não tenho a pretensão de acreditar que meu coração é leve como uma pluma. Não sou eu que tenho sabedoria o suficiente para julgar. O nome disso é humildade e é um bom exercício diário.

Esperar que um outro ser humano resolva a minha vida, resolva a vida de todas as pessoas é recusar a sair da infância. Colocar a culpa de todos os erros nos ombros de alguém é estar cego para as suas próprias responsabilidades. Acreditar em heróis? Só se forem os da Marvel e da DC e nos últimos tempos nem neles porque só sai coisa ruim! Menos reclamação e mais ação. Menos guerra e mais amor, por favor. Mais respeito pela vida alheia, porque é sempre bom só fazer para os outros o que se espera que os outros façam pra nós. E, principalmente, mais silêncio interior para que se possa ouvir a voz da alma e não do ego. Porque ela não costuma mentir.

Sei que não estou sozinha. Sei que existem muitas pessoas como eu por aí; e é pra eles que dedico este texto, com amor, porque se queremos um mundo diferente, temos que começar aceitando e agradecendo nossas esquisitices. Se nascemos em um mundo em relação ao qual não nos adaptamos, é sinal que temos que mudar nossa vida, nossa casa, nosso bairro.

Que nesta nova semana sejamos capazes de espalhar raios de luz, exemplos de bondade, de esperança e resiliência moral por onde passarmos para iluminar o caminho dos outros que ainda vêm. Ah!! E que não esqueçamos de começar a mudança do mundo por nosso próprio ambiente, porque de nada adianta ir para uma guerra sem nunca ter lutado uma batalha.