Amizades Verdadeiras ou Relacionamentos Úteis?

Tente digitar "amizade em tempos…" no Google e veja como ele completa a frase. Aliás nem precisa fazer este esforço que eu já trago a resposta: o nosso inseparável companheiro lhe mostrará as opções "modernos", "de pandemia", "de solidão" "difíceis". Com estes resultados me lembro de Bauman dizendo sobre como as interações se tornaram liquidas e está montada aí a eterna conversa da superficialidade, do vazio, da falta de amor e da intolerância. Vivemos em mundo com excesso de contatos e uma marcante falta de tato. Um mundo de cegueira, surdez e mudez. À medida que meus projetos avançam e que implemento uma reforma monumental nos meus modos, métodos, crenças e até nos meus sentimentos, quase todos padecendo de velhice acompanhada de insustentável decadência, é inevitável notar um recuo de participação no meu dia a dia dos chamados vínculos verdadeiros, de fato sinto que quase nunca estou com quem quero de fato estar. Sabe aquele estar por estar¿ Penso que não deve ser à toa que a sala de visitas burguesa também recebe o nome de "sala de estar". Apenas estar na sala, aproveitando as risadas de alguém querido, entre boas músicas, drinks e conversas leves. Se eu anotar o número de vezes no ano em que me permito fazer isso, verei o quanto essa experiência aparentemente banal virou uma ocasião especial na minha vida (Fiz as contas e em 365 dias, fiz isso exatas 8 vezes). Que soem as trombetas se eu conseguir convidar meia dúzia de pessoas para vir à minha casa jogar conversa fora, sem qualquer propósito, seja ele social, artístico ou profissional, no próximo mês. Duvido que eu vá.
Eu ando amuada com esta sensação de descolamento das pessoas e me questiono se é somente comigo que isso ocorre. Este distanciamento é evidenciado pela preguiça de responder aquele bom e velho "como vai" com aquela riqueza de detalhes que eu costumo dar numa resposta, além de dar respostas cada vez mais espaçadas com a desculpa de que esqueci e usar mais do que gostaria frases como "qualquer hora a gente combina" e "a correria me impede". Aí entra o grande questionamento do dia: "Qual foi o momento em que nossas vidas inteiramente ocupadas se tornaram a grande desculpa para não conseguirmos preenchê-las com o que nos é realmente importante¿ Este questionamento pode soar paradoxal se você não notar que esta miríade de tarefas cotidianas que forçosamente denominamos urgentes vai diminuindo a possibilidade de aproveitar o calor do afeto de boas companhias desinteressadas. Sinto que nos tornamos robôs com uma mesa cheia de peças sendo derrubadas num jogo muito eficiente e cadeiras vazias à sua volta.
Ao engendrar tal ruminação, comecei a observar mais as conversas e sondar os pensamentos dos que me rodeia e sem nenhuma surpresa vi que o que impera nestes dias é a falta de encaixe e o sentimento de se sentir só no mesmo quando acompanhado. A conclusão principal é que ninguém tem tempo para jogar conversa fora. O sentido de utilidade, de só ter conversas que levam a conquista de objetivos, ainda que não seja o próprio, já que toda conversa pode advir para um bem comum, substitui o prazer de simplesmente viver e coexistir.
Outro dia li em algum lugar a seguinte frase "nos dias de hoje já não importa ter amizades autênticas, mas relacionamento úteis". Falta disponibilidade! Mas será que é somente disponibilidade de tempo¿ Será que não nos falta disponibilidade emocional¿
É verdade que o trabalho drena as energias e é verdade que brasileiro tem que se virar nos trinta para viver razoavelmente bem (não passar fome), ainda mais em momento de crescente depressão econômica como o que estamos passando, mas eu começo a achar que desaprendemos a conversar por causa da onipresente tela e sem conversa, não tem amizade que se estabeleça ou se mantenha. As interações diárias com muita gente, dispersa, em sua maioria, em rápidos comentários públicos e mensagens privadas mastigadas e protocolares sugaram talvez o pouco tempo que nos reste fora do modo trabalho. O trabalho, por sua vez, nunca esteve tão misturado às nossas vidas pessoais, principalmente quando nosso fazer remunerado é vinculado aos saberes da sociedade. Foi algo que quisemos muito, não foi¿ Unir o escritório às nossas casas. Viver a plena comunhão dos nossos gostos, 'hobbies', verdadeiros interesses e vocações com a produtividade, a máquina de gerar lucro, o emprego do nosso precioso tempo. Home office. É nítido que a existência é mais recompensadora quando ganhamos dinheiro e reconhecimento com o que gostamos e sabemos fazer, mas será que este movimento de vida mais fluida, está fazendo bem para nossa vida pessoal, para nossa amizade¿
Talvez não. Uma roda de políticos me vem à cabeça. As redes sociais, que são também, ferramentas de 'business networking' (inclusive temos uma rede social chamada Linkedin que é exclusiva pra isto), somadas a este estilo pervasivo de trabalho, podem ter nos transformado em políticos. A política tem este poder de não só separar amigos de inimigos, ela também separa amigos de amigos e, pior, tende a juntar inimigos conforme interesses do momento. A política que instrumentaliza as relações, opõe-se à amizade onde querer estar com o outro basta. Querer estar e querer bem como imperativos. Se alguém some do nada da sua vida, sem dar uma satisfação, ou com afirmações muito quantitativas acerca de retribuições que não são afetivas, mas de favores, a possibilidade de nunca ter existido este desinteressado "querer bem" é bem grande. Cícero dizia que a amizade verdadeira não fica, severa, a controlar se está dando mais do que recebeu, mas parece que o "cálculo sobre a relação" é um hábito inescapável em tempos de "planilhar" tudo que fazemos, gastamos e desejamos. Na Bolsa de Valores das amizades, tem sempre uma 'commodity' que cai e outra que sobe, e os mais atentos vão até dar um gelinho despretensioso naquela que está valendo pouco.
Em minhas sondagens, algo que me marcou foi o desabafo de uma pessoa sobre sentir falta de os amigos perguntarem como ela está e de amigos "que se eu chamar pra conversar, eu possa falar de qualquer coisa". Doeu no peito ouvir tal coisa. Ela concluiu ser "culpa da modernidade" e que o melhor talvez fosse mudar-se da cidade em que as presenças são cada vez mais raras (Tudo bem que isso é um pensamento deveras recorrente para nós millenials enjoados da vida), "porque amigos pela internet eu vou continuar tendo, sempre". Mas talvez o problema seja justamente esse, a internet que está em todos os lugares e que dá a impressão de termos um monte de amigos quando apenas conhecemos muitas pessoas.
Quando dei de cara com a tal reclame, me dei conta de que grande parte de nós temos esse sentimento de que não nos comunicamos adequadamente. O discurso do ressentimento está na ponta da língua, porém, poucos deixam que isso escorra para o mundo espetacular das redes sociais porque lá a vida tem que ser só de esnobismos e exibicionismos. Ainda é preciso esconder como a dupla sucesso-fracasso está pautando nossas vidas e mais ainda, nossos vínculos afetivos. E é claro que tal dupla tem se tornado tão central também porque vivemos em torno dos nossos perfis. Essa má comunicação da qual tanto falamos tem a ver com um excesso de interação interessada, algo que foi facilitado pelas redes sociais. Se falta desinteresse para você ler uma notícia apenas pela manchete, ao invés de abrir a matéria adequadamente, falta também desinteresse pelo que o outro pode render a você. Estamos interessados demais e interessantes de menos. Desinteresse-se por algo ou por alguém, agora. Desinteresse-se por aquele projeto, aquele 'networking' esperto, aquela oportunidade imperdível e dê afeto. Falta rede na varanda com uma longa prosa mineira acerca do nada e sobra rede social gerando o tal do comportamento antissocial.
Penso que um efeito colateral disso tudo é esta vontade crescente de dar uma guinada para a vivência em tribo. Como seríamos num lugar em que dependêssemos, muito visivelmente, uns dos outros¿ Teríamos disponibilidade de alma para nos relacionar e trançar nossas trajetórias pessoais ¿ Para escutar e ceder¿ Como seriam as decisões tomadas por uma comunidade menor¿ Ao mesmo tempo, penso se essa não é uma idealização assaz romântica e que nas tribos antigas, vários sujeitos eram simplesmente impossibilitados de viver sua individualidade por radical necessidade de sobrevivência e que os laços, nestas circunstâncias, portanto, eram tão somente forçados. Assim como os de hoje, nos tempos em que nem toda a tecnologia 'wireless' do mundo disfarça este redemoinho emocional que nos enrola em interações vazias disfarçadas de úteis.
Nós nos acostumamos às distâncias falsamente eliminadas pelos agentes computadorizados do maravilhoso novo mundo global e estamos com ressaca de "conhecer" tanta gente e ao mesmo tempo, sedentos por contato humano. A exposição a opiniões contrárias e outros mundos dos quais não fazemos parte, pela internet, poderia levar a um encantamento pela diferença, e à absorção de novos códigos que expandissem a nossa experiência de realidade, mas parece que vem apenas fortalecendo o oposto: a intolerância. A falta de amizade no coração é proporcional à falta de tolerância. Ao tentar linkar o sumiço da amizade desinteressada com a evidenciação da intolerância me deparei com um escrito que dizia: "As guerras, as injustiças que ocorrem no mundo, são consequência do não-cultivo da amizade entre os seres humanos. Onde não se educa para a amizade, floresce o egoísmo, o isolamento. A amizade ainda é o antídoto para anular o preconceito, o racismo, a indiferença, a prepotência (…)". Aí fica evidenciado que a solidariedade é o eixo das relações humanas. Portanto, aquele desfazer do compromisso de uma amizade porque está pesando muito a relação, porque haverá a tão temida responsabilidade pelo bem-estar do outro, está diretamente ligado, sim, a muitas das mazelas que estamos experimentando num escopo maior.
Então, quer um conselho amigo¿ Deixe um 'post-it' lembrando você de mandar uma mensagem para aquela pessoa que não lhe dará nada além de afeto e sentido de pertencimento ou uma conversa agradável. Talvez, até uma conversa desagradável e não é legal que você fuja dela porque o desagradável também faz parte da vida e das interações humanas. E depois, deixe mais um 'post-it' para lembrar de continuar essa conversa, que só deve acabar quando o prazer ou a importância da troca naturalmente se esgotarem. Vale observar que o "nada além" aí em cima é força de expressão. Provavelmente, isso é tudo que você realmente levará desta passagem aqui na Terra. Ou que, pelo menos, a tornará mais interessante.