Em algum lugar eu sou saudade

Em algum lugar,

alguém talvez tenha sorrido por minha causa
enquanto eu lavava uma xícara,
distraída com a água escorrendo pelos dedos.

Talvez meu nome tenha atravessado uma tarde,
sem anúncio, sem motivo,
e repousado por alguns instantes
no pensamento de quem já não me espera.

Que coisa estranha e bonita
é continuar existindo onde já não estamos.

Enquanto atravesso ruas desconhecidas,
alguém pode estar caminhando por uma lembrança minha.
Enquanto escolho o que comer,
alguém talvez se recorde de uma mesa,
de duas cadeiras,
de uma conversa interrompida pelo riso.

E eu, sem saber de nada,
continuo vivendo.

Há qualquer coisa de extraordinário
em ser presente na própria vida
e passado na vida de outra pessoa.
Em seguir adiante
e, ainda assim, permanecer.

Quem sabe eu ainda more numa canção
que alguém não consegue ouvir
sem regressar a uma tarde distante.
Ou no cheiro da chuva,
numa palavra repetida por acaso,
na vontade repentina de contar uma novidade
a quem já não participa dos seus dias.

Talvez minha ausência não doa.
Talvez seja apenas aquela ternura inesperada
que visita o peito por alguns segundos
e depois se despede,
deixando um sorriso onde antes não havia nada.

Porque nem toda saudade deseja reencontros.

E há lembranças que não querem recomeçar.
Querem apenas existir.

Como uma flor esquecida entre as páginas de um livro,
que já não conserva o perfume,
mas ainda sabe contar a primavera.

E talvez alguém não sinta falta exatamente de mim,
mas da pessoa que conseguia ser ao meu lado.
Da liberdade de uma conversa sem cuidados,
da coragem de fazer planos absurdos,
da inocência de acreditar
que certas tardes durariam para sempre.

Quantas vezes terei sido lembrada
enquanto acreditava ter sido esquecida?
Quantas vezes meu rosto terá surgido
entre pensamentos que desconheço?
Quantas vezes minha voz terá voltado
sem que meus lábios pronunciassem palavra alguma?

E que mistério é esse
de poder partir de uma vida
sem partir inteiramente dela?

De não ocupar mais uma cadeira,
não receber mais uma carta,
não ser mais esperada à porta
e, ainda assim, permanecer
na geografia invisível de um sentimento?

Isso é a saudade:
um amor que já não encontra endereço,
mas continua sabendo o caminho.

Uma casa que já não existe,
mas cuja luz alguém ainda se recorda
de ter visto acesa.

E penso nas pessoas que carrego comigo.

Algumas já não saberiam reconhecer
os caminhos que percorro.
Outras desconhecem meus dias,
as alegrias que me visitaram depois,
as tristezas que aprendi a esconder.

E, no entanto, continuam aqui.

Uma delas aparece quando preparo o café.
Outra, quando ouço determinada música.
Há quem sobreviva numa expressão que repito
sem perceber de quem a aprendi.

Não penso nelas o tempo inteiro.
Não preciso.

Há presenças que se tornaram tão minhas
que já não consigo distinguir
onde termina a lembrança
e onde começa aquilo que sou.

Carrego tanta gente dentro de mim.

E nunca me ocorreu
que eu pudesse morar
dentro de alguém.

Talvez eu seja aquela história contada numa mesa de jantar.
O motivo de uma risada que ninguém compreende.
A lembrança que acompanha uma viagem.
O nome que alguém pensa em dizer
e guarda, com delicadeza,
no silêncio.

Não porque ainda me queira por perto.
Não porque deseje recuperar o passado.

Mas porque, em algum momento,
fui parte de uma vida
que aprendeu a acontecer comigo
e depois precisou aprender
a acontecer sem mim.

E isso me comove.

Pensar que talvez alguma palavra minha
tenha criado raízes num pensamento que desconheço.
Que um gesto pequeno, esquecido por mim,
ainda encontre abrigo na memória de outra pessoa.

Que alguém tenha aprendido a gostar de uma música
porque um dia a ouvimos juntos.
E que, anos depois,
ao escutá-la por acaso,
tenha sentido por um instante
a doçura de um tempo que já não existe.

E eu jamais venha a saber.

Não conhecerei todos os lugares
em que minha ausência se fez presença.
Não ouvirei os risos que provoquei de longe,
nem verei os olhos que se demoraram
sobre uma fotografia antiga.

Há flores que desabrocham
em jardins que ninguém visita.
Nem por isso a primavera
deixa de acontecer.

A vida segue.

As pessoas mudam,
os caminhos se afastam,
as casas recebem outros moradores,
as mesas acolhem novas conversas.

Os lugares que um dia foram nossos
aprendem a existir sem nós.

Mas, de vez em quando,
uma música começa a tocar.
Uma janela se abre.
O vento traz um cheiro antigo.

E alguém sorri.

Não há promessa de retorno,
nem desejo de recuperar o que passou.
Apenas a delicadeza de um instante
em que o passado se senta ao lado do presente
e, por um momento,
os dois se reconhecem.

E, enquanto escrevo estas palavras,
talvez alguém esteja lavando uma xícara,
olhando pela janela,
esperando a água ferver.

Talvez uma lembrança minha
tenha atravessado sua tarde.

Talvez tenha sorrido.

E eu, aqui,
sem saber de nada,
continuo vivendo.

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