A Complexidade da Simplicidade

02/12/2024


Vez ou outra, me pego pensando em como seria bom levar uma vida simples. Uma dessas vidas minimalistas, sabe? Poucos objetos, poucos compromissos, a cabeça leve como um céu limpo. Quase sinto o cheiro do café coado, o som de passarinhos e o barulho das folhas ao vento. Mas aí abro a gaveta de talheres da cozinha e percebo que lá há três abridores de lata. Três! Quem precisa de três abridores de lata? Este é o primeiro sinal de que o simples, na prática, é bem mais complicado do que parece.

A gente gosta da ideia de simplificar. Quem nunca quis arrumar a casa, a vida, o coração? Tudo organizado, sem excessos, sem confusões. Mas, quando tentamos, percebemos que simplificar não é só tirar o que é desnecessário – é enfrentar o que acumulamos ao longo do tempo. E, convenhamos, isso dá trabalho. Porque, por trás de cada "abridor de lata extra", existe uma história: "E se um dia eu precisar?" ou "Foi um presente, não posso me desfazer." Simplificar, no fim, é lidar com os apegos que temos e que nem sempre fazem sentido.

E não é só sobre objetos. A complexidade do simples está em tudo. Quer um exemplo? As redes sociais estão cheias de dicas de como ter uma vida mais leve. "Acorde cedo, medite, pratique gratidão, cuide das plantas." Parece fácil, mas, de repente, a simplicidade virou outra lista de tarefas. A leveza virou mais uma meta para alcançar, com cronograma e checklist. No esforço de simplificar, acabamos complicando ainda mais.

Até nas relações humanas, a ideia de simplicidade pode ser um desafio. "Seja direto, fale o que sente", dizem. Mas quem já tentou ser completamente honesto com alguém sabe que as coisas nunca são tão simples assim. Há as palavras que queremos dizer, as que temos medo de dizer, e aquelas que nem sabemos que sentimos até o momento de dizê-las. O "simples", nesse caso, é um labirinto que exige coragem para atravessar.

Eu achava que levar uma vida simples significava apenas cortar os excessos, mas percebi que é mais profundo do que isso. É sobre escolher o que realmente importa – e, para isso, precisamos entender o que estamos dispostos a abrir mão. E abrir mão não é fácil. É olhar para dentro, rever prioridades, e, muitas vezes, enfrentar um desconforto enorme por perceber que nem tudo o que carregamos nos faz bem.

Mas o simples não precisa ser perfeito. Nem sempre o simples é minimalista, ou impecavelmente organizado, ou livre de conflitos. Às vezes, o simples é apenas o que é possível naquele momento: uma decisão que traz paz, um compromisso a menos, um momento de descanso no meio da bagunça.

Talvez o simples não esteja em uma gaveta vazia, em uma agenda impecável ou em uma vida sem contradições. Talvez ele esteja na forma como escolhemos encarar as coisas. Porque o simples, no fim, não é a ausência de esforço, mas a escolha de viver de forma mais leve, mesmo quando o mundo insiste em ser pesado.